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quinta-feira, 12 de julho de 2012

Vem aí O SITE


Muito em breve será colocado, NO AR, o site, que para meu orgulho é construído por Natália del Cueto Simas. Nele a interação será maior, os textos do blog continuarão a ser postados normalmente, contos e trechos dos livros disponibilizados, imagens e uma seção para quem quiser postar seus textos e ideias. 
Brevemente também os livros serão vendidos no próprio site, com descontos e entrega rápida.


                 Então, aguardem, não demora muito.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Apresentação do autor



Se você está chegando agora, seja bem vindo e saiba um pouco mais sobre o autor e seu trabalho:

Marco Simas é mineiro radicado há muitos anos no Rio de Janeiro, sempre ligado ao cinema. Como roteirista e diretor realizou vários filmes de curta-metragem, entre eles os premiados:
“Solo do Coração”;  Com o andar de Robert Taylor”  
Foi Diretor Assistente em filmes como: Jorge um brasileiro e Villa-Lobos, uma vida de paixão. Trabalhou em televisão como roteirista e diretor de programas e atende produtoras de audiovisual. É ainda, professor de roteiro e direção cinematográfica em cursos universitários. Realiza oficinas de roteiro e de escrita criativa.

“Considero-me um contador de histórias como os aedos medievais, que espalhavam as aventuras de heróis distantes e populares. Escrevo para ler o que gosto e, de certa forma, realizo os filmes no papel e na imaginação do leitor”.
  
ÚLTIMO TREM
Romance
 A história se passa nos anos 1990, período negro da Era Collor. Além da crise econômica, frustração também no mercado cinematográfico nacional com o fechamento da Embrafilme. Miguel, criado no Cine Vera Cruz, só conhece a vida pelos clássicos que projetou por mais de cinquenta anos, e sua relação com a realidade se confunde com a dos filmes. Mas a crise fecha o Vera Cruz e Miguel é obrigado a enfrentar o mundo fora das telas. Conhece a bela Angelina encenando Carlitos numa praça. Ainda envolto em suas memórias, fica encantado. Após um trágico incidente, o velho projecionista e a jovem atriz, aliados fraternos, enfrentam as adversidades da vida real para levar ao interior do país a magia do cinema. Um sonho, um projetor antigo e uma sacola com latas de cenas de filmes, mudam o rumo e o sentido de muitas vidas.

Resenha (trecho):
Karol Albuquerque
Literatura Pop
Poucos livros que li essa ano me emocionaram tanto quanto O Último Trem, de Marco Simas. Eu fico imaginando por que motivos o autor não está por aí escrevendo mais e ganhando rios de dinheiro porque ele é simplesmente um gênio da literatura nacional. Há muito tempo não lia um livro tupiniquim que mexesse tanto comigo e me deixasse tão contente e esperançosa: entre tantas tentativas, aqui no Brasil, de se escrever gêneros populares como fantasia e chick-lits, foi exatamente um livro despretensioso, com um protagonista idoso e falando de cinema que conquistou meu coração. Chega a ser irônico.

 Depoimento autor:
 Escrever o Último Trem me deu tanto prazer quanto assistir aos filmes citados no texto. Seus personagens flutuam por entre a realidade, o lúdico, o desejo. Cada um deles é aquele que conhecemos, ouvimos falar a respeito e nunca nos será indiferente. Têm um pouco da gente em suas ações, sonhos e fantasias. Espero que o leitor encontre a mesma satisfação na viagem da leitura, quanto experimentei no dia a dia da escrita.

BÁRBARA NÃO QUER PERDÃO
Romance policial como Antônio Más

Quando o delegado Vagas chega em sua delegacia, encontra Bárbara, uma linda e enigmática loira a espera-lo, com um grande desafio: desvendar e provar dois assassinatos, que na verdade fazem parte de uma vingança arquitetada ao longo de muitos anos. É preciso que o delegado decifre o mistério o mais rápido possível, para não se tornar ele próprio, objeto da vingança.

Depoimento autor:
Bárbara nasceu meio que por acaso; um argumento para um filme ou seriado, que cresceu e ganhou vida própria. Gosto muito de romances policiais, da trama envolvente e de personagens enigmáticos. Com vontade de ler algo diferente do que se lê por aí, os detetives e delegados intelectuais, gênios da investigação dedutiva, criei um personagem marginal, o tipo que a sociedade desconsidera e jamais imagina fazendo justiça. A história, BÁRBARA NÃO QUER PERDÃO, é a apresentação da personagem. Muitas outras virão.

 Resenha (trecho):
Lorenzo Falcão
Da Editoria – Diário de Cuiabá

Pulp fiction. É a expressão que me vem à mente para melhor associar o tipo de literatura contido em “Bárbara não quer perdão”, de Antonio Más, editora Bagatela, lançado recentemente. Um romance policial escrito em linguagem tão simples e direta, que fica a impressão de que a gente está assistindo um filme de ação ou, numa hipótese mais ‘aparentada’, lendo uma história em quadrinhos. Graças a carga imagética imposta ao texto.

AQUI ESTAMOS NÓS
Romance
Em preparação

Trata-se de um romance “noir”, sem cair no velho esquema do detetive, ou do delegado. É formado por três livros que desenvolvem toda a história, que narra a saga de Aniella Shimura, em busca de sua identidade, e principalmente, da liberdade de ser mulher.
As personagens, totalmente ficcionais, foram criadas a partir de pesquisa e entrevistas com mulheres vítimas de violência, realizadas para dois filmes: O silêncio das inocentes e Maria da Penha.

Mulheres na Rio+20 denunciam violação dos compromissos assumidos na Eco 92


                                                            Foto da internet, sem crédito.

Do Território Global das Mulheres na Cúpula dos Povos para a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20)

Nós, de organizações feministas e de mulheres de diferentes países, reunidas no Território Global das Mulheres da Cúpula dos Povos, nos manifestamos frente aos governos que participam da Rio+20 para denunciar a sistemática violação dos compromissos mínimos assumidos na Eco 92 e as falsas soluções para alcançar o desenvolvimento sustentável baseadas na financeirização da natureza e no aprofundamento de um modelo de produção e consumo que é desigual e insustentável. A necessidade de lidar com os limites que a natureza impõe torna ainda mais dramáticas e urgentes as decisões governamentais para enfrentar as causas estruturais da crise sistêmica.

O sistema capitalista, em crise, prossegue explorando os bens comuns, privatizando os recursos naturais e mercantilizando o acesso aos direitos. Uma crise que tem suas raízes na perversa combinação entre capitalismo, patriarcado e racismo - sistemas que estruturam as desigualdades e injustiças pela militarização, pela divisão sexual do trabalho, pelo racismo ambiental, pela violação dos corpos das mulheres, entre outras formas de dominação e exploração no planeta e em nossas sociedades.

Esta crise e civilizatória. Abarca elementos econômicos e financeiros, mas também políticos, ambientais, culturais e sociais. Resulta na destruição da biodiversidade e dos recursos naturais, ao mesmo tempo que permite a consolidação de novas formas do patriarcado, incentiva e sustenta a criminalização da ação dos movimentos sociais.

Rechaçamos a imposição de um modelo econômico e de desenvolvimento que gera ao mesmo tempo que acirra as desigualdades, que destrói a natureza e a mercantiliza inventando, cinicamente, uma “economia verde” que aumenta as taxas de crescimento e de lucro para os mercados. Um modelo que prefere salvar os bancos e os banqueiros embora a precariedade e o desemprego deixem nas ruas milhões de pessoas. Um modelo baseado no lucro e na competição no qual, mais importante do que a cidadania das pessoas, e sua qualidade enquanto consumidoras. Um sistema que para sair da crise que ele próprio gerou, se apoia em forças retrógradas e fundamentalistas.

Os movimentos de mulheres e o movimento feminista participaram ativamente desde a Eco 92, lutando todos os dias para efetivar os direitos humanos, em particular os direitos das mulheres, e questionando as bases do sistema capitalista. Nossos movimentos não se calaram durante todos esses anos, quando muitos governos e organismos internacionais não fizeram a sua parte e tampouco prestaram contas sobre os compromissos assumidos na Rio 92.

Hoje, na Rio+20, viemos denunciar a evidente tentativa de retroceder em relação à garantia de direitos e à justiça socioambiental. Conclamamos representantes dos países na Rio+20, em especial o governo brasileiro, que coordena neste momento as negociações, a manter o compromisso com os direitos humanos já conquistados, inclusive os direitos sexuais e reprodutivos, assumindo a obrigatoriedade da sua efetivação com políticas públicas universais.

Repudiamos a ação ilegítima do G20 que, ora reunido no México, pretende impor um pacote de medidas predefinidas. São medidas que sequestram a democracia de um sistema internacional multilateral, instaurando uma agenda de aprofundamento da financeirização do sistema econômico e mercantilização dos direitos. São medidas que configuram uma captura corporativa das Nações Unidas por parte dos empreendimentos multinacionais que pretendem substituir por serviços, os direitos que devem ser garantidos pelos Estados.

Reivindicamos que os governos e organismos internacionais presentes à Rio+20 não retrocedam em relação aos compromissos assumidos pelos Estados, em termos de direitos humanos. Instamos os Estados-membros presentes nessa Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável a tomar medidas efetivas e alocar os recursos necessários para fazer cumprir o que foi pactuado na Eco 92, Viena 93, Cairo 94, Beijing 95, Durban 2001.

Demandamos a efetivação dos direitos humanos, individuais e coletivos, direitos sociais, culturais, ambientais, direitos reprodutivos, direitos sexuais de mulheres e meninas, direitos econômicos, direito à educação, direito à segurança e soberania alimentar, direito à cidade, à terra, à água, direito à participação política equitativa e igualitária.

Rechaçamos a falsa solução apresentada pela chamada “economia verde”, um instrumento que acirra ao invés de fazer retroceder o impacto destruidor da mercantilização e da financeirização da vida promovidas pelo capitalismo.

Finalmente, afirmamos que não validamos os compromissos governamentais concebidos sob a forma de programas mínimos, contraditórios com a responsabilidade pública assumida pelos governos e organismos internacionais com relação à garantia dos direitos humanos das mulheres. Não aceitamos paliativos, que deixam intocadas as causas estruturais dos problemas sociais, econômicos e ambientais, reproduzindo e agravando as múltiplas formas de desigualdades vividas pelas mulheres, assim como as injustiças socioambientais. Não nos bastam os objetivos reduzidos, como os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio-ODMs, e tampouco nos bastam os objetivos que ora se propõem com as Metas de Desenvolvimento Sustentável. Uma proposta que se impõe no vácuo da menção aos direitos humanos, abrindo caminho para a privatização de sua efetivação. Demandamos a efetivação dos direitos de todos os povos do mundo a seus territórios e seus modos de vida. Defendemos o direito de nós mulheres à igualdade, autonomia e liberdade em todos os territórios onde vivemos e naqueles onde existimos, ou seja, nossos corpos, nosso primeiro território!

Rio de Janeiro, 19 de junho de 2012.

Indicação de fontes:
Beatriz Galli – advogada e integrante das comissões de Bioética e Biodireito da OAB-RJ
(21) 8723.8223
Guacira de Oliveira – socióloga do Cfemea (Centro Feminista de Estudos e Assessoria) e integrante da Articulação de Mulheres Brasileiras
(61) 3224.1791 / 9984.5616

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Um Conto


Em 2007, o grupo que compunha o coletivo Bagatelas!, se uniu pra fazer homenagem as livrarias prediletas. Cada um escolheu a sua e escreveu o seu conto. O projeto de um livro, com os contos, infelizmente ficou pelo caminho. Este é o meu.

O nome do sebo, assim que o vi pela primeira vez, fez com que eu entrasse na loja. Embora sempre tenha frequentado sebos, talvez instigado pelo nome, descobri uma nova sensação, como se realmente mergulhasse em um mar de histórias.
O texto é ficcional, claro, mas a personagem é verdadeira.

A saga de Aniella, em Aqui Estamos Nós, volta em janeiro, depois do dia 15.

Desejo a todos um 2012, cheio de boas histórias.




BAIXINHA

Era a primeira vez que saía da comunidade. Não estava especialmente animada, já conhecia o mundo inteiro, ou quase. A cidade então, nem se fala, sempre tão bem mostrada em novelas e nos telejornais.

Nascera e crescera ali. Bem, crescera era modo de dizer ficara baixinha igual à avó, e esse era seu apelido. A paralisia infantil atrapalhou um monte de coisas, mas a principal delas foi a freqüência na escola. Esforçou-se por um tempo, mas as dificuldades eram enormes e os colegas não ajudavam, as brincadeiras eram agressivas e a deixava mais aleijada do que era.

            Aprendeu a juntar as letras e se tivesse tempo conseguia ler algumas palavras. Mas nada disso importava, ainda era nova, dezesseis anos, aprenderia tudo na marra. Uma coisa que aprendeu nesse tempo foi lutar. Toda sua família lutava pela sobrevivência com muita garra, ela especialmente.

Seu pai, Antonio da Silva, era um homem trabalhador e responsável. Veio de Pernambuco ainda criança, com trabalho, conseguiu estudar, construir sua casinha e criar a família. Foi morar na favela da Rocinha por conta de uma oportunidade imperdível. Na mesma semana em que foi empregado como faxineiro em um prédio de Copacabana, o porteiro estava para se aposentar e voltaria com a família para o Rio Grande do Norte. Por isso vendia a casa em condições excepcionais. Antonio negociou a casinha em Nova Iguaçu e comprou a tranqüilidade de ficar bem mais perto do trabalho. Trouxe a família e ali a Baixinha nasceu.

Quando tinha seis anos, Baixinha viu seu pai ser morto. Em sua cabecinha o pai morreu como herói, defendendo a família. Nunca entendeu os motivos fúteis que cercaram o crime. O pai fora à birosca com a filha mais velha, treze anos, o corpo já forjado no trabalho duro de lavar e passar. Um garoto, pouco mais velho do que a filha, armado com um revólver e por um poder exacerbado, conferido pelo chefe do tráfico de drogas, se engraçou com a menina e não teve dúvidas, nem culpas, em descarregar a arma no pai que puxou a filha para tirá-la dali.

A mãe, a irmã e o irmão, mais velhos, trabalhavam fora, saiam cedo e voltavam no final do dia. Baixinha cuidava da casa e do filho pequeno da irmã. Limpava, cozinhava, inventava coisas para distrair o pequeno e preparava o jantar, sempre servido à medida que cada um ia chegando, a irmã era sempre a última. E quando chegava não queria nada com o filho. O irmão tentava fazer o papel de chefe da família, o que provocava muitas brigas. Baixinha assistia aquilo tudo e sentia-se a mãe do sobrinho.

Nas tardes quentes e arrastadas, contava histórias para distrair a criança. Tirava idéias da televisão e inventava casos mirabolantes com gente bonita, rica, chique e sempre de bem com a vida. Contava e sonhava, imaginando-se no lugar de várias personagens, sempre as boazinhas, as que no final da novela venciam.

Seu universo se dividia entre o mundo da televisão e a realidade atrás da porta. Sempre que precisava sair de casa para buscar alguma coisa na birosca, ficava apreensiva. Ainda que não se lembrasse mais com clareza da morte do pai sentia um medo inexplicável. Não gostava do que via e nem do que ouvia apesar de ninguém falar com ela. Aparentemente nem a notavam, mas ela sentia hostilidade na indiferença, como se não fizesse parte, não integrasse a comunidade. Por isso voltava rápido para seu mundo, sua vida de responsabilidades com a casa, com o sobrinho, um mundo só dela, de pura fantasia.

Uma noite, a mãe chegou muito mais tarde do trabalho. Um fato nunca antes acontecido. Baixinha já estava à beira do desespero, sem notícias. Na casa não havia telefone e só os irmãos tinham celular de cartão. A comunicação só acontecia de viva voz. A mãe já uma senhora de setenta anos, passou mal e a patroa a levou na emergência do hospital e a deixou lá. Depois de horas aguardando na fila, fora examinada pelo médico e aconselhada a ficar de repouso por alguns dias e a fazer uma rigorosa dieta e levar uma vida mais saudável, a pressão estava muito alta. Era importante fazer um exame completo de sangue.

- Liguei de lá mesmo para a dona Valéria e disse que o médico passou essa receita. – Contou para os filhos que a cercavam na mesa. – Mas ela não pode ficar sem ninguém lá, tem muito serviço. Mas eu não to agüentando não. Passei muito mal. Aí eu disse pra ela que ia mandar minha filha no meu lugar por uns dois dias enquanto eu descanso um pouco.

Os três filhos se entreolharam. Quem iria substituir a mãe? Os olhares caíram sobre a Baixinha. Ela sorriu encarando como brincadeira.

            Mas como, se nunca saíra da Rocinha? Não fazia a menor idéia do mundo lá fora. Nunca a levavam a lugar nenhum, nem a praia que os irmãos iam com frequência aos domingos.

            - É minha filha, nós não pode ficar sem o dinheiro e se num for ninguém a dona Valéria arruma outra. Sua irmã tem o trabalho dela, e eu posso ficar com o neném, isso eu posso.

Não tinha contestação, era assim e pronto. A rotina voltou ao normal. Baixinha serviu a janta, lavou e secou os pratos e as panelas, ajeitou as coisas, trocou o pequeno, fez a mamadeira e foi para cama. Nessa noite nem inventou história pra dormir, sequer se imaginou como a moça pobre que chegava na cidade grande a procura de parentes e de um jeito de ganhar a vida. Sentia-se exausta e com o aperto no peito, o mesmo que sentia quando ia à birosca.

De manhã bem cedo, ninguém falou nada desnecessário. A mãe deu a Baixinha o dinheiro da passagem e ensinou qual o ônibus pegar. Explicou, com detalhes, como chegar no apartamento de dona Valéria, dando as referências.

- Fala com o trocador do ônibus que você quer saltar perto da rua Hilário de Gouvêa. É perto do ponto.

Assim dito, foi cuidar do neto.

Baixinha pegou a bolsa da mãe, conferiu o dinheiro para a ida e a volta, olhou sua certidão de nascimento, que via pela primeira vez e conseguiu distinguir seu nome escrito em letra mais escura. Leu baixinho e estranhou o som:

- Maria das Dores Silva.

Deu uma última olhada para a casa e saiu.

Arrastou o pezinho torto em direção ao ponto de ônibus, muito além dos limites com os quais estava acostumada. Manteve a cabeça baixa e nos raríssimos momentos de silêncio podia ouvir o próprio coração. 

Pensava enquanto olhava de través as pessoas que passavam por ela: “já conheço o mundo inteiro. A cidade então, conheço tudo. Já vi na televisão, não tem diferença”.

Lembrou-se da moça da novela e por alguns segundos levantou a cabeça e respirou fundo, sentindo um outro estranho sentimento, que não tinha idéia que se chamava orgulho, e era bom. Ao cruzar com o olhar de um homem que estava na janela de uma casa, voltou a baixar a cabeça e a ouvir o coração.

Entrou no ônibus, lotado e barulhento. As pessoas falavam alto e riam, e Baixinha ficou um pouco atordoada. Mas assim que o ônibus começou a rodar descobriu uma coisa nova. Um mundo novo passava diante dela. Era mais rápido e mais vivo do que a televisão. Uma sucessão de imagens e cores, tudo em movimento mudando constantemente de muro para casa, para mar, para céu, carros, gente, quanta coisa.

E o ônibus se meteu por umas ruas cheias de lojas com coisas diferentes, panos, roupas, televisões, comidas. Tudo passava rápido, mal dando tempo de reter as informações. Quando parava, Baixinha ficava deslumbrada com tanta gente atravessando de um lado para o outro, parecia que estavam perdidas sem saber para onde ir.

Bem mais adiante tudo foi ficando mais lento. O ônibus começou a rodar aos trancos. Às vezes corria, outras vezes andava muito devagar, até que parou no meio da rua, numa rua em decida, e podia-se ver lá na frente um pedacinho do mar. Baixinha começou a olhar as fachadas das lojas. Arriscou-se a ler os nomes, alguns inelegíveis, que ela logo entendeu ser outra língua. Mas em uma delas estava escrito uma coisa que a fez sentir um frio na barriga, uma emoção única. Leu com grande dificuldade, mas conseguiu entender. Estava escrito: Mar de Histórias.

O ônibus andou e Baixinha quase arrumou um torcicolo tentando ver o que havia  dentro da loja. O trânsito se mexeu de repente, não conseguiu ver nada. Seguiu repetindo o nome Mar de Histórias, e nada mais a interessou. Ficou atenta apenas na indicação do trocador e saltou no ponto indicado.



Dona Valéria não gostou muito do que viu a sua porta. Acostumara-se com os serviços da mãe da Baixinha, que já trabalhava pra ela há mais de dez anos. Como uma aleijadinha daria conta do recado. O apartamento era grande, os filhos pequenos e bagunceiros e ela e o marido gostavam de tudo muito limpo e organizado. A comida tinha que ser feita no dia e ainda precisava comprar coisas no supermercado.

Demonstrou seu descontentamento e passou as ordens, de um jeito seco. E era muita coisa mesmo para fazer. Baixinha nem se preocupou, trabalho era como outras coisas que não podia deixar de fazer, como respirar e comer. Apanhou o material de limpeza e começou a faxina. Uma coisa boa fazia seu peito arder toda vez que se lembrava do nome escrito numa placa grande sobre a loja, Mar de Histórias, repetia e vinha a dúvida: teria lido direito. Foi tão rápido e com tanta coisa acontecendo a sua volta. Ainda bem que voltaria à casa de dona Valéria no outro dia, poderia ler de novo e confirmar. Mas o que seria aquilo? O que poderia ter dentro de um lugar chamado Mar de Histórias? Todas essas questões ocupavam seus pensamentos e o dia passava e ela cumpria as tarefas.

Dona Valéria saiu logo após dar às ordens e só voltaria no final do dia, já com os filhos. Queria tudo muito bem arrumado e a comida prontinha. O marido chegava do trabalho muito cansado e gostava de comer antes do telejornal. Baixinha ouviu e pensou: “esse povo rico é igual a gente, sem tirar nem por.” Fora o tamanho do apartamento, as coisas de luxo, como o sofá branquinho e enorme na sala, o resto era igual também, pior, nem vista tinha. Todas as janelas davam pra alguma outra janela. O barraco pelo menos tinha um visual de fotografia. E ela limpava, arrumava, espanava, ajeitava e nem precisava prestar muita atenção no que fazia, podia pensar e tentar adivinhar o significado do nome. Mar ela sabia muito bem o que era, via todos os dias lá do morro. Nunca entrou na água, mas prestava atenção na conversa dos outros e sabia como era, o sal, as ondas. História também sabia, não era o que ela vivia inventando para contar ao sobrinho? Agora, como seria um mar de histórias? Sua cabeça chegava a doer em busca de uma explicação plausível.

Muito antes da hora marcada já estava com tudo pronto. E quer saber? Ficou tudo muito melhor e mais arrumado. Sua mãe era boa faxineira, mas já estava velha e cansada. Sentou na sala para esperar. Ficou olhando para uma televisão estranha, muito grande e reta. Aproximou-se para ver melhor, era engraçada, não tinha aquela caixa atrás. Não achou como ligar. Sobre a mesinha de centro viu quatro controles remotos, de formatos estranhos. Resolveu não mexer. Não era direito.

Na hora marcada dona Valéria chegou com os filhos. Dois meninos lindos e curiosos. Olhavam pra ela rindo meio disfarçado toda vez que ela andava. Olhavam para seu pezinho torto e a perna mais fina. O maior de nove anos era do tamanho dela. Achou os meninos educados e nem ligou para os olhares, estava acostumada a ser diferente. “Menino rico raramente vê gente aleijada”. Conversou com eles sobre a escola e eles responderam rindo, eram realmente muito educados. Dona Valéria passou a casa em revista, sempre com Baixinha a segui-la esperando alguma reclamação. Mas a patroa parecia satisfeita, mesmo não dizendo nada. Foram à cozinha. Destampou as panelas, cheirou, passou pela mesa, trocou alguns talheres de lugar e finalmente olhou assim meio rápido para a Baixinha e disse:

- Você vem amanhã na mesma hora, sem atrasos, por favor. E diz pra sua mãe procurar o médico e descansar o máximo possível.

E nada mais.

Os meninos riram, e Baixinha saiu arrastando o pezinho. Segurou o medo na

hora de entrar no elevador, que a deixara enjoada quando subiu. Lá no fundo uma sensação diferente a fazia sentir-se bem, nunca fora elogiada, experimentava a sensação boa do dever cumprido.

            No ônibus ficou atenta a janela. Será que passaria de novo em frente ao

Mar de Histórias?



            Foi uma noite longa. Deitou-se tarde, depois de lavar os pratos e panelas e

arrumar a cozinha. Não falou com ninguém. Quando chegou sua mãe assistia à novela, o menino já dormia e os irmãos haviam saído. Assim que deitou dormiu, mas teve um sonho esquisito, estava no mar e tentava contar uma história para os filhos da patroa, eles riam e nadavam pra longe dela. Tentava alcançá-los, mas as ondas a empurravam de volta. Até que afundou e mergulhou em um silêncio de morte. Acordou assustada e sem ar. Só foi conseguir dormir uma hora antes de o despertador tocar.

            No ônibus foi conversando com um rapaz conhecido de vista, ele também

trabalhava em Copacabana, entregava pizza. Era bonito demais, apesar da falta de dentes e da pouca atenção que dava a ela. Conversava atenta ao exterior, queria ler de novo o nome mar de histórias. Pensou em perguntar ao rapaz se ele sabia o que era, mas teve vergonha. Dessa vez o ônibus passou rápido e nem viu o letreiro, apesar de reconhecer o lugar. Mas não importava, um dia ia entrar lá, o lugar era dela. Riu do pensamento, estava feliz. Isso ela percebia.

            Sabia agora que não conhecia muita coisa. O mundo possível era muito

maior do que ela imaginara. Entendia mais as novelas, os filmes e tudo que via na televisão. O mais surpreendente foi descobrir que fazia parte da história, era uma personagem de verdade e não uma inventada por ela em seus devaneios. Eram confusos os pensamentos e  cada viagem que fazia, indo e voltando para o trabalho, virava uma aventura, um desbravamento. Tornara-se uma pessoa. Dona Valéria continuava demonstrando sua indiferença, mesmo não perguntando mais pela mãe dela e confiando, cada vez mais, mandando-a fazer compras.

Ao final do primeiro mês de Baixinha no lugar da mãe, dona Valéria pagou o

salário. Ao conferir em casa, a mãe notou que havia uma diferença de cem reais. Desconfiou da filha, inquiriu, acusou e fez Baixinha chorar. Então teria que questionar a patroa, dizer que estava faltando. Muito sem graça, com um medo danado, mesmo assim Baixinha perguntou e ouviu a resposta:

- Quando sua mãe voltar eu pago integral.

           Achou justo. A mãe não gostou, mas também não disse nada. Fazer o quê?



Tempos depois a viagem de ônibus já não tinha tanta graça. Nunca mais

pararam em frente ao Mar de Histórias. Passavam rápido, ou quando parava, não dava pra ver. Muitas vezes viajava em pé, no meio de uma gente sem modos, que não prestava atenção nela, pisando, empurrando, amassando. Mesmo assim seu coração disparava quando percebia a aproximação da rua do Mar de Histórias. Aliás, sua grande tristeza é que já não conseguia criar suas histórias. Não tinha mais tempo, nem cabeça. O trabalho era duro e cansativo. Já não assistia à televisão e nem sonhava mais. Cansada, deitava e dormia profundamente.

Um dia sua mãe morreu. De repente. Não acordou. Foi um dia tumultuado e muito

triste. Mas as coisas foram resolvidas de maneira rápida, a irmã foi com o filho morar na casa do namorado, um dos soldados do tráfico. O irmão passou a chefe da casa, exigindo mais capricho da Baixinha na limpeza e na comida.

Naquele mês, dona Valéria descontou o dia em que Baixinha não foi trabalhar, por

conta do enterro da mãe. Tudo bem, ela pensou, mas sentiu uma coisa que cada vez mais ocupava sua cabeça, e ela sabia muito bem que era raiva. O pior foi numa sexta-feira, véspera do aniversário de um dos filhos da patroa. Assim que chegou encontrou na cozinha uma moça bonita, uniformizada, preparando salgados e doces. Baixinha se empolgou pensando na festa. No final do dia dona Valéria veio falar com ela:

- Amanhã não precisa vir. Pode tirar de folga.

            Mesmo cansada não dormiu à noite. Sua cabeça não dava trégua, odiava aquela mulher com todas as forças. E os filhos, sempre rindo e falando nas costas, cuidando pra que ela ouvisse as gracinhas: “Lá vem a deixa que eu chuto.” “Ponto e vírgula, ponto e vírgula.” Diziam às gargalhadas. Seu coração apertado envenenava-se cada vez mais. Foi ver televisão na madrugada em busca do sono e de outras fantasias. Assistiu a um filme sem prestar atenção, a não ser quando a empregada resolveu matar a patroa. Já não discernia entre ficção e realidade. Era outra pessoa, todas as imperfeições do mundo caíram sobre seus ombros. Passou a agir pelo instinto de sobrevivência. Algo martelava seu cérebro, aconselhando a mudar o rumo das coisas. Se o mundo ria dela, se a vida a fez diferente, se a realidade a maltratava mudaria isso. Vingaria a própria existência.

            O dia a pegou na cozinha, olhos fixos na faca, grande e afiada, que usava para os cortes mais precisos. Não demorava a pegá-la pela dúvida, mas pela visão antecipada do que tinha que fazer. Colocou a faca na bolsa. Procurou entre as roupas que a irmã deixara para trás e escolheu a mais bonita, afinal ia a uma festa. Teve trabalho para ajustar o vestido bem maior do que seu pequeno número. Olhou-se no espelho mofado e odiou mais ainda a vida.

            O ônibus àquela hora, mais barulhento, estava cheio de pessoas alegres e descontraídas a caminho da praia. Mais do que nunca Baixinha se sentiu invisível. Conseguiu sentar junto à janela, mas não prestava atenção nas coisas que passavam rápidas. Estava determinada e um vazio ocupava sua cabeça, expulsando qualquer pensamento. Teve vontade de chorar sem saber muito bem por que. A raiva, o ódio, eram sentimentos recém-adquiridos, tão desconfortáveis. No entanto tinha noção que dali por diante, seriam companheiros inseparáveis. Não pensava no futuro, nas conseqüências, mas intuía coisas ruins. Algum dia por acaso vivera coisas boas? Aliás, na realidade, o que eram coisas boas?

            O trânsito era mais livre aos sábados, o ônibus seguia rápido e o motorista parecia entender a aflição de sua passageira, fazendo manobras arriscadas, costurando por entre os carros que passeavam no dia de sol. Vez por outra Baixinha enfiava a mão na bolsa e apertava a lâmina da faca a ponto de se cortar, o gesto revigorava sua tensão, a mantinha alerta e nutria sua raiva. Antevia a cena, ouvia gritos misturados com choros e podia ver muito sangue. Chegou a sentir o gosto do sangue da vítima, sem se dar conta que mordia o lábio.

O sinal fechou e o ônibus parou bruscamente. Assustada Baixinha olhou pela janela e lá estava de novo o letreiro Mar de Histórias. Riu internamente e pela primeira vez na sua vida repetiu um palavrão que seu irmão sempre dizia: “que merda”. O sinal demorou a abrir e seu coração deu um salto ao ver uma pessoa entrando pela porta de vidro. Levantou-se impulsionada pelo velho sonho e pela curiosidade até então esquecida. Saltou no próximo ponto e andou determinada, esquecendo-se da dor que recentemente voltara a sua perna doente.

Parou diante da porta. Leu acima da porta: Livraria Mar de Histórias. Não pensou em nada, era movida por uma emoção muito maior do que tudo que a levara até ali. Entrou.   

Deparou-se com centenas e centenas de livros e revistas, numa desordem fascinante.

Lombadas e capas multicoloridas, milhões de letras e palavras. Não sabia direito o que significava aquilo, mas seu coração bombava com tal vigor que sentia a cabeça dilatada, uma pressão na nuca e no peito, imergia em outro mundo, um mundo acolhedor, aconchegante. Passou as mãos pelos livros e olhou para as pontas dos dedos, emocionada, quase adivinhando o que havia dentro daquelas capas empoeiradas.

            O vendedor olhava desconfiado. Aproximara-se devagar e ao falar provocara nela um sobressalto.

            - Você veio pelo anúncio?

Baixinha não entendeu e o viu apontando para a vitrine. Nesse momento o vendedor foi solicitado por um cliente. Ela foi olhar o papel preso na vitrine. Viu letras escritas de um jeito muito estranho. Saiu para a calçada e aí sim, conseguiu ler juntando letra por letra: Precisa-se de faxineira. O vendedor voltou a falar com ela:

- Realmente está tudo muito sujo, empoeirado. Tem muito trabalho.

Ela olhou para o homem completamente careca na sua frente, ficou nervosa e teve uma vontade enorme de rir. Mal conseguiu falar.

- O que tem nesses livros?

- A grande maioria é romance, estórias de amor, essas coisas. - Respondeu o

vendedor, com simpatia. – O trabalho é diário e o salário não é grande coisa, mas também não é ruim. – Completou.

Baixinha olhava cada vez mais emocionada para tudo aquilo. Balbuciou:

            - Então isso é um mar de histórias? 

- É. Todas as histórias estão aí. – Disse o vendedor fazendo graça num gesto vago.

- Posso ler, eu não sei ler direito, - apressou-se em dizer Baixinha, - mas posso ler quando terminar a faxina?

O vendedor riu.

            - Pode, mas só se começar a trabalhar logo.

Ela riu e fez que sim com a cabeça, deixando escapar uma lágrima, que despistou.

            - Posso começar agora. – Quase gritou.

- Tem algum documento aí?

Ela enfiou a mão na bolsa para pegar a certidão de nascimento e seu dedo encontrou a lâmina afiada da faca.

Com o dedo sangrando passou o documento para o vendedor.

- Você vai gostar de trabalhar aqui é muito divertido. – Disse o homem se afastando.

- Vou dar meu sangue. – Respondeu Baixinha levando o dedo à boca, sentindo o gosto do próprio sangue.