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quinta-feira, 18 de abril de 2013
Agência Senado) Os municípios deverão manter pelo menos um hospital de referência para atendimento emergencial, integral e multidisciplinar a vítimas de violência sexual, oferecendo, num mesmo local, tratamento médico e psicológico, atendimento profilático, facilitação do registro policial da ocorrência e coleta de material para identificação do agressor.
Essa assistência em rede está prevista em projeto (PLC 3/2013) aprovado nesta quarta-feira (10) pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), que segue agora para decisão terminativa na Comissão de Assuntos Sociais (CAS).
Presente à reunião da CDH, a autora da proposta, deputada Iara Bernardi (PT-SP), explicou que o projeto torna lei protocolo já existente no Sistema Único de Saúde (SUS), mas que não vem sendo cumprido.
– Tem que ter um hospital de referência, com regras para o atendimento policial, atendimento psicológico à vítima de violência sexual, coleta de material para possível identificação do agressor e medicamento que ela precisa receber, como a pílula do dia seguinte, para não engravidar. É um aparato que tem que funcionar em rede – disse a deputada, ao lembrar que as medidas devem ser tomadas até 72 horas após a agressão.
A proposta define violência sexual como “qualquer forma de atividade sexual não consentida” e detalha os serviços obrigatórios que devem estar disponíveis nos hospitais integrantes do SUS.
Estabelece, por exemplo, a realização de diagnóstico e tratamento das lesões, apoio psicológico, profilaxia da gravidez e das doenças sexualmente transmissíveis e informações sobre serviços sanitários disponíveis. Determina ainda a colaboração nos procedimentos policiais e investigativos, como a preservação de materiais coletados e exame de DNA para identificação do agressor.
Em voto favorável, a relatora na CDH e presidente da comissão, Ana Rita (PT-ES), elogiou o caráter amplo da proposta, que não limita o apoio à mulher vítima de violência.
– Sabemos que não são raros os casos de violência sexual contra crianças, jovens e idosos, do sexo masculino, bem como contra transexuais, travestis e homossexuais de qualquer sexo. O projeto trata de não fazer distinção de gênero entre as vítimas. Só podemos louvar esse posicionamento – frisou.
Para Ana Rita, a visão ampla de atendimento prevista na proposta facilitará a recuperação física e psicológica da vítima, contribuindo para o restabelecimento de sua autoestima e autoconfiança.
Também manifestaram apoio à proposta os senadores Paulo Paim (PT-RS), João Capiberibe (PSB-AP), Eduardo Suplicy (PT-SP), Paulo Davim (PV-RN). Na opinião de Paulo Davim, que é médico, a rede de acolhimento prevista no projeto ajudará a reduzir o sofrimento e constrangimento das vítimas de violência sexual e contribuirá para melhorar o atendimento hospitalar a esses casos.
– Os serviços em geral não têm estrutura para atender às mulheres vítimas de violência e os servidores não estão preparados para a gravidade do problema – observou, ao elogiar a iniciativa.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Vem aí O SITE

Muito em breve será colocado, NO AR, o site, que para meu orgulho é construído por Natália del Cueto Simas. Nele a interação será maior, os textos do blog continuarão a ser postados normalmente, contos e trechos dos livros disponibilizados, imagens e uma seção para quem quiser postar seus textos e ideias.
Brevemente também os livros serão vendidos no próprio site, com descontos e entrega rápida.
Então, aguardem, não demora muito.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Apresentação do autor
Marco
Simas é mineiro radicado há muitos anos no Rio de Janeiro, sempre ligado ao
cinema. Como roteirista e diretor realizou vários filmes de curta-metragem,
entre eles os premiados:
“Um dia, Maria” (http://video.google.com/videoplay?docid=-2779514709124993322) ;
“Solo do Coração”; Com o andar de Robert Taylor”
Foi Diretor Assistente em
filmes como: Jorge um brasileiro e Villa-Lobos, uma vida de paixão. Trabalhou
em televisão como roteirista e diretor de programas e atende produtoras de
audiovisual. É ainda, professor de roteiro e direção cinematográfica em cursos
universitários. Realiza oficinas de roteiro e de escrita criativa.
“Considero-me
um contador de histórias como os aedos medievais, que espalhavam as
aventuras de heróis distantes e populares. Escrevo para ler o que gosto e, de
certa forma, realizo os filmes no papel e na imaginação do leitor”.
ÚLTIMO TREM
Romance
A
história se passa nos anos 1990, período negro da Era Collor. Além da crise
econômica, frustração também no mercado cinematográfico nacional com o
fechamento da Embrafilme. Miguel, criado no Cine Vera Cruz, só conhece a vida
pelos clássicos que projetou por mais de cinquenta anos, e sua relação com a
realidade se confunde com a dos filmes. Mas a crise fecha o Vera Cruz e Miguel
é obrigado a enfrentar o mundo fora das telas. Conhece a bela Angelina
encenando Carlitos numa praça. Ainda envolto em suas memórias, fica encantado.
Após um trágico incidente, o velho projecionista e a jovem atriz, aliados
fraternos, enfrentam as adversidades da vida real para levar ao interior do
país a magia do cinema. Um sonho, um projetor antigo e uma sacola com latas de
cenas de filmes, mudam o rumo e o sentido de muitas vidas.
Resenha
(trecho):
Karol Albuquerque
Literatura
Pop
Poucos
livros que li essa ano me emocionaram tanto quanto O Último Trem, de Marco
Simas. Eu fico imaginando por que motivos o autor não está por aí escrevendo
mais e ganhando rios de dinheiro porque ele é simplesmente um gênio da
literatura nacional. Há muito tempo não lia um livro tupiniquim que mexesse
tanto comigo e me deixasse tão contente e esperançosa: entre tantas tentativas,
aqui no Brasil, de se escrever gêneros populares como fantasia e chick-lits,
foi exatamente um livro despretensioso, com um protagonista idoso e falando de
cinema que conquistou meu coração. Chega a ser irônico.
Depoimento
autor:
Escrever
o Último Trem me deu tanto prazer quanto assistir aos filmes citados no texto.
Seus personagens flutuam por entre a realidade, o lúdico, o desejo. Cada um
deles é aquele que conhecemos, ouvimos falar a respeito e nunca nos será
indiferente. Têm um pouco da gente em suas ações, sonhos e fantasias. Espero
que o leitor encontre a mesma satisfação na viagem da leitura, quanto
experimentei no dia a dia da escrita.
BÁRBARA NÃO QUER PERDÃO
Romance policial como
Antônio Más
Quando o
delegado Vagas chega em sua delegacia, encontra Bárbara, uma linda e enigmática
loira a espera-lo, com um grande desafio: desvendar e provar dois assassinatos,
que na verdade fazem parte de uma vingança arquitetada ao longo de muitos anos.
É preciso que o delegado decifre o mistério o mais rápido possível, para não se
tornar ele próprio, objeto da vingança.
Depoimento
autor:
Bárbara
nasceu meio que por acaso; um argumento para um filme ou seriado, que cresceu e
ganhou vida própria. Gosto muito de romances policiais, da trama envolvente e
de personagens enigmáticos. Com vontade de ler algo diferente do que se lê por
aí, os detetives e delegados intelectuais, gênios da investigação dedutiva,
criei um personagem marginal, o tipo que a sociedade desconsidera e jamais
imagina fazendo justiça. A história, BÁRBARA NÃO QUER PERDÃO, é a apresentação
da personagem. Muitas outras virão.
Resenha
(trecho):
Lorenzo
Falcão
Da Editoria – Diário de Cuiabá
Pulp fiction. É a expressão que me vem à mente para melhor associar o tipo de literatura contido em “Bárbara não quer perdão”, de Antonio Más, editora Bagatela, lançado recentemente. Um romance policial escrito em linguagem tão simples e direta, que fica a impressão de que a gente está assistindo um filme de ação ou, numa hipótese mais ‘aparentada’, lendo uma história em quadrinhos. Graças a carga imagética imposta ao texto.
Da Editoria – Diário de Cuiabá
Pulp fiction. É a expressão que me vem à mente para melhor associar o tipo de literatura contido em “Bárbara não quer perdão”, de Antonio Más, editora Bagatela, lançado recentemente. Um romance policial escrito em linguagem tão simples e direta, que fica a impressão de que a gente está assistindo um filme de ação ou, numa hipótese mais ‘aparentada’, lendo uma história em quadrinhos. Graças a carga imagética imposta ao texto.
AQUI ESTAMOS NÓS
Romance
Em preparação
Trata-se de um romance “noir”, sem cair no velho
esquema do detetive, ou do delegado. É formado por três livros que desenvolvem toda
a história, que narra a saga de Aniella Shimura, em busca de sua identidade, e
principalmente, da liberdade de ser mulher.
As personagens,
totalmente ficcionais, foram criadas a partir de pesquisa e entrevistas com
mulheres vítimas de violência, realizadas para dois filmes: O silêncio das
inocentes e Maria da Penha.
Mulheres na Rio+20 denunciam violação dos compromissos assumidos na Eco 92
Foto da internet, sem crédito.
Do Território Global das
Mulheres na Cúpula dos Povos para a Conferência das Nações Unidas sobre o
Desenvolvimento Sustentável (Rio+20)
Nós, de organizações feministas e de mulheres de diferentes países, reunidas no Território Global das Mulheres da Cúpula dos Povos, nos manifestamos frente aos governos que participam da Rio+20 para denunciar a sistemática violação dos compromissos mínimos assumidos na Eco 92 e as falsas soluções para alcançar o desenvolvimento sustentável baseadas na financeirização da natureza e no aprofundamento de um modelo de produção e consumo que é desigual e insustentável. A necessidade de lidar com os limites que a natureza impõe torna ainda mais dramáticas e urgentes as decisões governamentais para enfrentar as causas estruturais da crise sistêmica.
O sistema capitalista, em crise, prossegue explorando os bens comuns, privatizando os recursos naturais e mercantilizando o acesso aos direitos. Uma crise que tem suas raízes na perversa combinação entre capitalismo, patriarcado e racismo - sistemas que estruturam as desigualdades e injustiças pela militarização, pela divisão sexual do trabalho, pelo racismo ambiental, pela violação dos corpos das mulheres, entre outras formas de dominação e exploração no planeta e em nossas sociedades.
Esta crise e civilizatória. Abarca elementos econômicos e financeiros, mas também políticos, ambientais, culturais e sociais. Resulta na destruição da biodiversidade e dos recursos naturais, ao mesmo tempo que permite a consolidação de novas formas do patriarcado, incentiva e sustenta a criminalização da ação dos movimentos sociais.
Rechaçamos a imposição de um modelo econômico e de desenvolvimento que gera ao mesmo tempo que acirra as desigualdades, que destrói a natureza e a mercantiliza inventando, cinicamente, uma “economia verde” que aumenta as taxas de crescimento e de lucro para os mercados. Um modelo que prefere salvar os bancos e os banqueiros embora a precariedade e o desemprego deixem nas ruas milhões de pessoas. Um modelo baseado no lucro e na competição no qual, mais importante do que a cidadania das pessoas, e sua qualidade enquanto consumidoras. Um sistema que para sair da crise que ele próprio gerou, se apoia em forças retrógradas e fundamentalistas.
Os movimentos de mulheres e o movimento feminista participaram ativamente desde a Eco 92, lutando todos os dias para efetivar os direitos humanos, em particular os direitos das mulheres, e questionando as bases do sistema capitalista. Nossos movimentos não se calaram durante todos esses anos, quando muitos governos e organismos internacionais não fizeram a sua parte e tampouco prestaram contas sobre os compromissos assumidos na Rio 92.
Hoje, na Rio+20, viemos denunciar a evidente tentativa de retroceder em relação à garantia de direitos e à justiça socioambiental. Conclamamos representantes dos países na Rio+20, em especial o governo brasileiro, que coordena neste momento as negociações, a manter o compromisso com os direitos humanos já conquistados, inclusive os direitos sexuais e reprodutivos, assumindo a obrigatoriedade da sua efetivação com políticas públicas universais.
Repudiamos a ação ilegítima do G20 que, ora reunido no México, pretende impor um pacote de medidas predefinidas. São medidas que sequestram a democracia de um sistema internacional multilateral, instaurando uma agenda de aprofundamento da financeirização do sistema econômico e mercantilização dos direitos. São medidas que configuram uma captura corporativa das Nações Unidas por parte dos empreendimentos multinacionais que pretendem substituir por serviços, os direitos que devem ser garantidos pelos Estados.
Reivindicamos que os governos e organismos internacionais presentes à Rio+20 não retrocedam em relação aos compromissos assumidos pelos Estados, em termos de direitos humanos. Instamos os Estados-membros presentes nessa Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável a tomar medidas efetivas e alocar os recursos necessários para fazer cumprir o que foi pactuado na Eco 92, Viena 93, Cairo 94, Beijing 95, Durban 2001.
Demandamos a efetivação dos direitos humanos, individuais e coletivos, direitos sociais, culturais, ambientais, direitos reprodutivos, direitos sexuais de mulheres e meninas, direitos econômicos, direito à educação, direito à segurança e soberania alimentar, direito à cidade, à terra, à água, direito à participação política equitativa e igualitária.
Rechaçamos a falsa solução apresentada pela chamada “economia verde”, um instrumento que acirra ao invés de fazer retroceder o impacto destruidor da mercantilização e da financeirização da vida promovidas pelo capitalismo.
Finalmente, afirmamos que não validamos os compromissos governamentais concebidos sob a forma de programas mínimos, contraditórios com a responsabilidade pública assumida pelos governos e organismos internacionais com relação à garantia dos direitos humanos das mulheres. Não aceitamos paliativos, que deixam intocadas as causas estruturais dos problemas sociais, econômicos e ambientais, reproduzindo e agravando as múltiplas formas de desigualdades vividas pelas mulheres, assim como as injustiças socioambientais. Não nos bastam os objetivos reduzidos, como os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio-ODMs, e tampouco nos bastam os objetivos que ora se propõem com as Metas de Desenvolvimento Sustentável. Uma proposta que se impõe no vácuo da menção aos direitos humanos, abrindo caminho para a privatização de sua efetivação. Demandamos a efetivação dos direitos de todos os povos do mundo a seus territórios e seus modos de vida. Defendemos o direito de nós mulheres à igualdade, autonomia e liberdade em todos os territórios onde vivemos e naqueles onde existimos, ou seja, nossos corpos, nosso primeiro território!
Rio de Janeiro, 19 de junho de 2012.
Indicação de fontes:
Beatriz Galli – advogada e integrante das comissões de Bioética e Biodireito da OAB-RJ
(21) 8723.8223
Guacira de Oliveira – socióloga do Cfemea (Centro Feminista de Estudos e Assessoria) e integrante da Articulação de Mulheres Brasileiras
(61) 3224.1791 / 9984.5616
terça-feira, 12 de junho de 2012
Manifestação das Mulheres na Cúpula dos Povos
As mulheres presentes na Cúpula dos Povos convocam
uma manifestação feminista para o dia 18 de junho, às 10h, no Museu de
Arte Moderna (MAM). O objetivo é mostrar o posicionamento feminista de
crítica global às falsas soluções propostas para a crise atual,
representada pela ‘economia verde’.
A visão comum das mulheres é que deve ser construído outro modelo de produção-reprodução e consumo, baseado em outro paradigma de sustentabilidade da vida. Por isso, como sujeitos ativos no processo da Cúpula dos Povos, as mulheres se posicionam contra a mercantilização da natureza, em defesa dos bens comuns. Defendem, também, a liberdade, a autonomia e soberania das mulheres sobre seus corpos e suas vidas e demandam voz ativa em todos os processos de decisão sobre as políticas em geral.
Data: 18/06/2012
Horário: 10h
Local: Museu de Arte Moderna (MAM) Rio de Janeiro/RJ
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Mapa da Violência 2012
Aqui estamos nós diante de novos e atualizados dados,
assustadores! Visualizar estas pesquisas é importante pra sairmos do "ouvi
dizer". É real e acontece em todos os níveis sociais, econômicos e
culturais.
Não dá pra ficar indiferente. Leia a pesquisa, converse, dê
ideias, meta a colher.
Foto da internet, sem crédito
Acaba de ser divulgado o Mapa da Violência 2012
Segundo o estudo do Instituto Sangari - coordenado pelo sociólogo Júlio Jacobo Waiselfiz e realizado em parceria com a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) -, de 1980 a 2010, foram assassinadas no país cerca de 91 mil mulheres, 43,5 mil só na última década. O número de mortes nesses 30 anos passou de 1.353 para 4.297, o que representa um aumento de 217,6% nos índices de assassinatos de mulheres.
Acesse em pdf o caderno complementar do Mapa da Violência 2012 - Homicídio de Mulheres no Brasil
quinta-feira, 10 de maio de 2012
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Aqui estamos nós... 2012!
Deu no Fantástico. Talvez agora muitas pessoas passem a acreditar.
http://tinyurl.com/7ch2aj3
terça-feira, 24 de abril de 2012
Formas de violência contra a mulher - Desafio
Do Globo on-line.
Caso de estupro abala universidade federal em JF
Denúncia reacende debate sobre sexismo e violência no ambiente acadêmico
JUIZ DE FORA (MG) - Não se fala em outro assunto no bucólico campus
da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em Minas Gerais. A
polícia investiga a denúncia de estupro de uma estudante dentro do
Instituto de Artes e Design (IAD), na noite da sexta-feira 13, há dez
dias. Explosiva por si só, a notícia se espalhou pela cidade de pouco
mais de 500 mil habitantes, a cerca de 180 quilômetros do Rio, e
reacendeu o debate sobre sexismo, velocidade das investigações, trotes
discriminatórios e temores com a violência entre jovens.
Focos feministas, seguidos por alguns setores da universidade, fizeram barulho em redes sociais e listas de discussão na internet exigindo apuração da denúncia e mostrando casos de trotes ofensivos contra mulheres. Pais de estudantes reforçaram os avisos para que seus filhos universitários não se envolvam em “festas perigosas”, enquanto a reitoria promete investigar tudo e proibiu, por ora, eventos festivos do tipo da festa do dia 13. Alunos mostraram preocupação com a ausência de debate sobre o caso dentro da UFJF; outros acham que a vítima — uma adolescente 17 anos que cursava o primeiro período — bebeu demais e se expôs excessivamente. Marcado por conquistas libertárias, o movimento estudantil vive, em Juiz de Fora e em outras cidades do país, às voltas com denúncias de práticas retrógradas.
As discussões convergem para um pergunta: como tratar denúncias de estupro e de violência contra a mulher dentro do ambiente universitário? Até as polícias Federal e Civil bateram cabeça num primeiro momento, já que se trata de um crime registrado dentro de instituição federal. As investigações só começaram na quarta-feira passada, e, até a sexta-feira, os exames médicos ainda não haviam chegado às mãos da delegada da Polícia Civil de Minas que assumiu o caso.
A conselheira tutelar Delfina Mônica Costa esteve com a jovem no dia seguinte à festa, à espera que os pais chegassem do interior de São Paulo, onde a família vive. A estudante trancou a matrícula e voltou para casa.
— Ela diz ter tomado um copo de cerveja e três ou quatro copinhos de “gummi”, uma bebida feita com vodca e suco (solúvel). Afirma também que havia uma bala (tipo drops) dentro do copo. A partir do momento em que tomou, ela conta ter perdido a consciência e só se recorda de flashes, com alguém a levando à força para um corredor dentro do próprio instituto. Depois, teve forças para voltar se arrastando para o meio da festa, onde encontrou as colegas. As veteranas a levaram para a pensão e deram-lhe um banho — diz Delfina, ao lembrar o que disse a jovem, que só foi ao hospital no dia seguinte, à tarde. — Ela não tinha a noção de que o conselho tutelar ou a polícia seriam acionados, não queria que os pais soubessem. A médica nos acionou por conta do suposto abuso. Ela foi realmente estuprada porque teve rompimento do hímen, sangramento. Então (o caso) dela foi estupro. É a minha visão.
A UFJF tem 18 mil alunos e, na última sexta-feira, a equipe do “Globo a Mais” conversou com vários deles. Os estudantes do IAD foram os únicos que preferiram não conceder entrevista. Apenas uma funcionária do instituto, que pediu para não ser identificada, relatou que não acredita em estupro porque a jovem teria entrado num carro com outros estudantes e saído do campus. Na faculdade de Biologia, a aluna Ana Carolina Mercês, de 20 anos, conta ter ouvido conversas estranhas no ônibus que passa dentro do campus:
— Desagradou a mim ouvir pessoas dizendo que ela bebeu demais e fez porque quis, que não foi vítima. É um preconceito. Não diriam isso se a história fosse com a própria filha. Reflete, no fundo, uma visão machista. Isso mostra a necessidade de se trabalharem esses assuntos. Já deu, chegou a hora — cobra a jovem.
— Minha avó soube da história e disse que eu só podia andar na rua em bando — conta Nara Lopes, de 20 anos, também da Biologia.
O campus da universidade é privilegiado, com 1,3 milhão de metros quadrados. Há espaço de sobra, tanto para os estudos quanto para festas, com diversos pátios internos, áreas verdes e prédios espaçados. Um lago no centro do terreno é uma das marcas da UFJF. Como em qualquer universidade, outra marca são os trotes. Nos últimos tempos, porém, a recepção de calouros tem recebido críticas, principalmente pelo tratamento dado às mulheres. Um trote recente da turma de Comunicação fez com que as meninas usassem placas com os dizeres “cara de sapatão” e “cara de puta”.
— Como mulher, mãe, lésbica e professora, tenho a dizer que esses trotes são a expressão do preconceito que ainda não tem, em alguns casos, criminalização certa e prevista em lei. Você não tem alunos negros carregando placas pejorativas em relação à sua negritude, ainda bem. Mas, se tivesse, esses alunos sabem que já há lei que penaliza isso — diz Daniela Auad, professora da Faculdade Educação. — O trote ocorre a partir de veteranos de uma faculdade que tem um diretório acadêmico chamado Vladimir Herzog. Sempre que há violência contra a mulher, é preciso ter apuração e punição. Silenciar diante disso e não se responsabilizar é agredir novamente todas as mulheres.
O Diretório Acadêmico (DA) de Comunicação Social tem paredes pintadas por grafites e videogames ligados à televisão. Sobre a geladeira, algumas garrafas de cachaça e vodca, aparentemente em uso, embora não se saiba se o conteúdo era de bebida alcoólica. Na porta, uma placa com o nome do diretório em homenagem a Vladimir Herzorg, jornalista morto em 1975, durante a ditadura militar.
Igor Rodrigues, do terceiro período, faz parte do DA, embora não responda por ele. Para o estudante de 20 anos, não há problema algum em relação aos trotes:
— Ninguém é obrigado a participar. Dei o trote e me senti lesado (com as reclamações). Todos têm o direito de não querer ir, e quem vai sabe como é. Não é o objetivo humilhar ninguém. Acho o machismo um problema absurdo.
Por outro lado, a colega de curso Valéria Fabri, de 19 anos, ficou incomodada com algumas brincadeiras do trote de que participou como caloura:
— Escolhi participar porque é um rito de passagem, mas não sabia do que chamam de inquisição. Eles te colocam numa cadeira, com os veteranos em volta, só para humilhar, fazendo perguntas como “engole ou cospe?”, coisas assim. Te pegam no corredor e levam para a sala. Acho ruim porque não perguntam. Te buscam na hora da aula.
A delegada Maria Isabela Bovalente Santo, da delegacia de Orientação e Proteção à Família e responsável pela investigação, ainda não tem um suspeito. Segundo ela, as investigações estão apenas no início:
— O laudo (médico) ainda não chegou às minhas mãos. A vítima disse ter sido estuprada, a versão dela é essa. Então foi aberto um inquérito para apurar um estupro, mas ainda não há indiciamento. Vamos colher o maior número possível de provas sobre o que aconteceu. Por que essa menina está se dizendo vítima? O que aconteceu nessa festa? Algo aconteceu. Agora, eu não tenho condições de afirmar que foi um estupro. Contamos com a colaboração da vítima, que sabe de alguns traços físicos (do agressor). Temos um prazo de 30 dias, que pode ser prorrogado.
O reitor da UFJF, Henrique Duque, instaurou, na sexta-feira passada, uma comissão de sindicância para apurar, em sigilo e no âmbito da universidade, a denúncia. Também ficou decidido que estão suspensos, temporariamente, os eventos festivos na UFJF que não estejam relacionados às atividades fins da instituição.
— Como reitor e pai, lamento. Tivemos a oportunidade de ligar para o pai da pessoa, que me pareceu, pela conversa, alguém muito sensato, de muito equilíbrio. Queremos apurar a fundo e chegar a quem fez e onde foi feito. Há uma dúvida ainda. O pai também quer investigação — disse o reitor, que também comentou sobre o comportamento de estudantes em trotes — Este ano houve lá fora (da universidade) uma coisa de discriminação. Fiquei assustado e muito surpreso com aquele tipo de comportamento no trote (das placas com frases pejorativas). Nós, que somos educadores, sabemos que é uma mudança de comportamento, que vem da educação. É uma coisa que preocupa muito. Ninguém é contra um trote que marque a passagem do aluno. Já tive conversas com o Ministério Público Estadual, e estamos falando diretamente com o MP Federal. A ideia é que, neste semestre, antes do próximo vestibular, tenhamos uma resolução para limitar esses problemas.
O pai da jovem, que já tem um advogado para tratar do caso, aguarda as investigações, embora mostre alguma descrença:
— Minha filha tem 17 anos e passou em três universidades públicas e duas particulares. Sempre esteve entre as melhores alunas. Achamos que era melhor (na UFJF) porque nos preocupávamos mais com a segurança. Achei uma república na porta da universidade. Ela nunca tinha namorado, não saía de casa e nunca havia bebido. Estão querendo dizer que (o crime) foi fora (do campus). Se foi mesmo, alguém viu, e eu também quero ver o circuito interno (as câmeras), então. Minha filha está quieta, não quer ver ninguém e está fazendo tratamento com remédios. Estava há apenas 45 dias na cidade. Estou esperando o prazo dado pela polícia, dando um crédito, mesmo achando que é difícil resultar em alguma coisa.
Focos feministas, seguidos por alguns setores da universidade, fizeram barulho em redes sociais e listas de discussão na internet exigindo apuração da denúncia e mostrando casos de trotes ofensivos contra mulheres. Pais de estudantes reforçaram os avisos para que seus filhos universitários não se envolvam em “festas perigosas”, enquanto a reitoria promete investigar tudo e proibiu, por ora, eventos festivos do tipo da festa do dia 13. Alunos mostraram preocupação com a ausência de debate sobre o caso dentro da UFJF; outros acham que a vítima — uma adolescente 17 anos que cursava o primeiro período — bebeu demais e se expôs excessivamente. Marcado por conquistas libertárias, o movimento estudantil vive, em Juiz de Fora e em outras cidades do país, às voltas com denúncias de práticas retrógradas.
As discussões convergem para um pergunta: como tratar denúncias de estupro e de violência contra a mulher dentro do ambiente universitário? Até as polícias Federal e Civil bateram cabeça num primeiro momento, já que se trata de um crime registrado dentro de instituição federal. As investigações só começaram na quarta-feira passada, e, até a sexta-feira, os exames médicos ainda não haviam chegado às mãos da delegada da Polícia Civil de Minas que assumiu o caso.
A conselheira tutelar Delfina Mônica Costa esteve com a jovem no dia seguinte à festa, à espera que os pais chegassem do interior de São Paulo, onde a família vive. A estudante trancou a matrícula e voltou para casa.
— Ela diz ter tomado um copo de cerveja e três ou quatro copinhos de “gummi”, uma bebida feita com vodca e suco (solúvel). Afirma também que havia uma bala (tipo drops) dentro do copo. A partir do momento em que tomou, ela conta ter perdido a consciência e só se recorda de flashes, com alguém a levando à força para um corredor dentro do próprio instituto. Depois, teve forças para voltar se arrastando para o meio da festa, onde encontrou as colegas. As veteranas a levaram para a pensão e deram-lhe um banho — diz Delfina, ao lembrar o que disse a jovem, que só foi ao hospital no dia seguinte, à tarde. — Ela não tinha a noção de que o conselho tutelar ou a polícia seriam acionados, não queria que os pais soubessem. A médica nos acionou por conta do suposto abuso. Ela foi realmente estuprada porque teve rompimento do hímen, sangramento. Então (o caso) dela foi estupro. É a minha visão.
A UFJF tem 18 mil alunos e, na última sexta-feira, a equipe do “Globo a Mais” conversou com vários deles. Os estudantes do IAD foram os únicos que preferiram não conceder entrevista. Apenas uma funcionária do instituto, que pediu para não ser identificada, relatou que não acredita em estupro porque a jovem teria entrado num carro com outros estudantes e saído do campus. Na faculdade de Biologia, a aluna Ana Carolina Mercês, de 20 anos, conta ter ouvido conversas estranhas no ônibus que passa dentro do campus:
— Desagradou a mim ouvir pessoas dizendo que ela bebeu demais e fez porque quis, que não foi vítima. É um preconceito. Não diriam isso se a história fosse com a própria filha. Reflete, no fundo, uma visão machista. Isso mostra a necessidade de se trabalharem esses assuntos. Já deu, chegou a hora — cobra a jovem.
— Minha avó soube da história e disse que eu só podia andar na rua em bando — conta Nara Lopes, de 20 anos, também da Biologia.
O campus da universidade é privilegiado, com 1,3 milhão de metros quadrados. Há espaço de sobra, tanto para os estudos quanto para festas, com diversos pátios internos, áreas verdes e prédios espaçados. Um lago no centro do terreno é uma das marcas da UFJF. Como em qualquer universidade, outra marca são os trotes. Nos últimos tempos, porém, a recepção de calouros tem recebido críticas, principalmente pelo tratamento dado às mulheres. Um trote recente da turma de Comunicação fez com que as meninas usassem placas com os dizeres “cara de sapatão” e “cara de puta”.
— Como mulher, mãe, lésbica e professora, tenho a dizer que esses trotes são a expressão do preconceito que ainda não tem, em alguns casos, criminalização certa e prevista em lei. Você não tem alunos negros carregando placas pejorativas em relação à sua negritude, ainda bem. Mas, se tivesse, esses alunos sabem que já há lei que penaliza isso — diz Daniela Auad, professora da Faculdade Educação. — O trote ocorre a partir de veteranos de uma faculdade que tem um diretório acadêmico chamado Vladimir Herzog. Sempre que há violência contra a mulher, é preciso ter apuração e punição. Silenciar diante disso e não se responsabilizar é agredir novamente todas as mulheres.
O Diretório Acadêmico (DA) de Comunicação Social tem paredes pintadas por grafites e videogames ligados à televisão. Sobre a geladeira, algumas garrafas de cachaça e vodca, aparentemente em uso, embora não se saiba se o conteúdo era de bebida alcoólica. Na porta, uma placa com o nome do diretório em homenagem a Vladimir Herzorg, jornalista morto em 1975, durante a ditadura militar.
Igor Rodrigues, do terceiro período, faz parte do DA, embora não responda por ele. Para o estudante de 20 anos, não há problema algum em relação aos trotes:
— Ninguém é obrigado a participar. Dei o trote e me senti lesado (com as reclamações). Todos têm o direito de não querer ir, e quem vai sabe como é. Não é o objetivo humilhar ninguém. Acho o machismo um problema absurdo.
Por outro lado, a colega de curso Valéria Fabri, de 19 anos, ficou incomodada com algumas brincadeiras do trote de que participou como caloura:
— Escolhi participar porque é um rito de passagem, mas não sabia do que chamam de inquisição. Eles te colocam numa cadeira, com os veteranos em volta, só para humilhar, fazendo perguntas como “engole ou cospe?”, coisas assim. Te pegam no corredor e levam para a sala. Acho ruim porque não perguntam. Te buscam na hora da aula.
A delegada Maria Isabela Bovalente Santo, da delegacia de Orientação e Proteção à Família e responsável pela investigação, ainda não tem um suspeito. Segundo ela, as investigações estão apenas no início:
— O laudo (médico) ainda não chegou às minhas mãos. A vítima disse ter sido estuprada, a versão dela é essa. Então foi aberto um inquérito para apurar um estupro, mas ainda não há indiciamento. Vamos colher o maior número possível de provas sobre o que aconteceu. Por que essa menina está se dizendo vítima? O que aconteceu nessa festa? Algo aconteceu. Agora, eu não tenho condições de afirmar que foi um estupro. Contamos com a colaboração da vítima, que sabe de alguns traços físicos (do agressor). Temos um prazo de 30 dias, que pode ser prorrogado.
O reitor da UFJF, Henrique Duque, instaurou, na sexta-feira passada, uma comissão de sindicância para apurar, em sigilo e no âmbito da universidade, a denúncia. Também ficou decidido que estão suspensos, temporariamente, os eventos festivos na UFJF que não estejam relacionados às atividades fins da instituição.
— Como reitor e pai, lamento. Tivemos a oportunidade de ligar para o pai da pessoa, que me pareceu, pela conversa, alguém muito sensato, de muito equilíbrio. Queremos apurar a fundo e chegar a quem fez e onde foi feito. Há uma dúvida ainda. O pai também quer investigação — disse o reitor, que também comentou sobre o comportamento de estudantes em trotes — Este ano houve lá fora (da universidade) uma coisa de discriminação. Fiquei assustado e muito surpreso com aquele tipo de comportamento no trote (das placas com frases pejorativas). Nós, que somos educadores, sabemos que é uma mudança de comportamento, que vem da educação. É uma coisa que preocupa muito. Ninguém é contra um trote que marque a passagem do aluno. Já tive conversas com o Ministério Público Estadual, e estamos falando diretamente com o MP Federal. A ideia é que, neste semestre, antes do próximo vestibular, tenhamos uma resolução para limitar esses problemas.
O pai da jovem, que já tem um advogado para tratar do caso, aguarda as investigações, embora mostre alguma descrença:
— Minha filha tem 17 anos e passou em três universidades públicas e duas particulares. Sempre esteve entre as melhores alunas. Achamos que era melhor (na UFJF) porque nos preocupávamos mais com a segurança. Achei uma república na porta da universidade. Ela nunca tinha namorado, não saía de casa e nunca havia bebido. Estão querendo dizer que (o crime) foi fora (do campus). Se foi mesmo, alguém viu, e eu também quero ver o circuito interno (as câmeras), então. Minha filha está quieta, não quer ver ninguém e está fazendo tratamento com remédios. Estava há apenas 45 dias na cidade. Estou esperando o prazo dado pela polícia, dando um crédito, mesmo achando que é difícil resultar em alguma coisa.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/caso-de-estupro-abala-universidade-federal-em-jf-4719165#ixzz1sxcNTlkk
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Aqui estamos nós... Um encontro diferente. (continuação)
Aniella se lembrou do encontro com um rapaz, considerado
como diferente dos demais. Para rememorarmos suas últimas palavras:
“Subimos ao segundo andar pelas escadas e entramos
em um apartamento simples. Como ele não disse nada em momento algum, perguntei
se era mudo. Ele riu e disse não. Desculpou-se com um gesto e apontou o
banheiro.
Assim que entrei e fechei a porta, fui tomada por uma onda de entusiasmo. No mínimo era um cara diferente. Então me segurei e disse a mim mesma: Cuidado Ane, não se iluda, a felicidade é pra poucos...”
Assim que entrei e fechei a porta, fui tomada por uma onda de entusiasmo. No mínimo era um cara diferente. Então me segurei e disse a mim mesma: Cuidado Ane, não se iluda, a felicidade é pra poucos...”
- Como assim diferente? – Perguntei.
“Normalmente os homens fazem mil perguntas,
desconfiam, se mostram exigentes e superiores. No final acreditam, ou querem
acreditar, em tudo o que a gente diz. Aquele rapaz, não. Seu jeito era tímido,
fechado. Dava a impressão de estar agradecido por eu ir com ele. Tinha lá suas
manias, mas quem não tem?”
- E a relação, na cama, alguma diferença?
“No início não. Apressado como a maioria e
preocupado apenas com ele. Sabe, né? Mas isso pra gente é bom. Quanto mais
rápido melhor, mais clientes por noite, mais faturamento”.
- Então o que fez a diferença?
“Não foi na primeira vez, não. Quer dizer, naquela
noite alguma coisa explodiu lá dentro. Não foi exatamente um orgasmo. Por
incrível que pareça, foi melhor. Me senti segura, embora ele continuasse sem
dizer nada. Me assustei quanto ele saiu de cima de mim, virou de lado e pegou
uma arma, e ficou lá lustrando o ferro que já brilhava. Não sei, mas ao invés de
medo, logo entendi que aquele rapaz, magro, alto e bonito, fazia parte do meu
mundo”.
Continua...
Imagem da internet, sem crédito.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Pequena vitória, grande avanço.
Ontem acompanhei atentamente as discussões do STF. Os Ministros votaram e confirmaram por unanimidade a legalidade da Lei Maria da Penha. Incrível, mas depois de mais de cinco anos, ainda havia desacordos sobre uma série de aplicações. Inclusive, alguns juízes, consideravam alguns artigos inconstitucionais.
Quero ressaltar a decisiva intervenção da Ministra Carmem Lúcia. Deixou claro, dizendo que mesmo como juíza sofre preconceitos por ser mulher. Só isso, o que não é pouco, reafirma a necessidade da luta constante e de uma vigilância ampla em todas as camadas sociais.
Aqui estamos nós...
Vejam a matéria:
Maria da Penha vale mesmo sem queixa da mulher agredida, diz STF
Redação SRZD | Nacional | 09/02/2012 19h48
Esta foi a primeira ação analisada durante a tarde e tem autoria da Presidência da República. O pedido era para que o STF confirmasse a legalidade da Lei Maria da Penha para evitar interpretações de que ela não trata homens e mulheres de forma igual. A norma foi editada em 2006, mas ainda há diversos juízes que resistem em aplicá-la. Um juiz de Minas Gerais chegou a ser afastado do cargo pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) ao chamar a norma de "demoníaca".
A representante da União no julgamento, Gracie Fernandes, citou dados que, segundo ela, "espancam, de uma vez por todas, a tese de que a lei ofende o princípio da igualdade entre homem e mulher". Ela revelou que, em 92,9% dos casos de violência doméstica, a agressão é praticada pelo homem contra a mulher, e que, em 95% dos casos de violência contra mulher, o agressor é seu companheiro. De acordo com a advogada, 6,8 milhões de brasileiras já foram espancadas no ambiente doméstico, com um episódio de violência registrado a cada cinco segundos.
Os ministros acompanharam integralmente o voto do relator, Marco Aurélio Mello, para quem a lei foi um "avanço para uma nova cultura de respeito". O voto mais marcante foi o da ministra Cármen Lúcia, a mais antiga mulher da composição atual do STF. Fazendo paralelo com sua própria experiência, a ministra disse que ainda hoje sofre preconceito por ser uma das (duas) ministras do Supremo. "Acham que juízas desse tribunal não sofrem preconceito, mas sofrem. Há gente que acha que isso aqui não é lugar de mulher".
Os ministros agora vão estudar uma ação de inconstitucionalidade da Procuradoria-Geral da República, também em relação à Lei Maria da Penha. O objetivo que é o Ministério Público possa denunciar agressores mesmo que as mulheres desistam de fazê-lo.
Com informações da Agência Brasil
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA
Aqui estamos nós... diante de mais uma tragédia familiar, que sempre nos parece impossível, distante, coisa que só acontece nas classes baixas. Quando falamos da questão cultural, da importância de informar e formar nossos jovens, é por acreditar que esse é o caminho para, no mínimo incutir o respeito entre os sexos, nas futuras gerações.
Leiam abaixo a matéria publicada no Estado de Minas online pra entender a cronologia do drama vivido per essa família e as dificuldades de uma reação da justiça:
Leiam abaixo a matéria publicada no Estado de Minas online pra entender a cronologia do drama vivido per essa família e as dificuldades de uma reação da justiça:
Por: Pedro Ferreira, Alfredo Durães, Guilherme Paranaiba
Ela, servidora pública federal, 35 anos, bonita, bem-sucedida, mãe apaixonada de dois filhos. Ele, pai das crianças, 49 anos, empresário do ramo de locação de veículos, conhecido pelo gosto refinado e pela vaidade. Moravam em residencial de alto padrão em Nova Lima, Sul da Grande BH. Por trás do assassinato da procuradora da Advocacia Geral da União Ana Alice Moreira de Melo, encontrada com várias perfurações pelo corpo ontem no imóvel do casal, no Condomínio Villa Alpina, está um enredo de traição, ameaças e denúncias oculto pela aparência de luxo e conforto transmitida pelo padrão de vida da família.
A história é o que transparece do inquérito sobre os pedidos de proteção feitos contra o marido da vítima, o empresário Djalma Brugnara Veloso, que teve a prisão preventiva decretada como principal suspeito do crime, ocorrido por volta das 4h30 de ontem. Os documentos que tramitam no Fórum Augusto de Lima, em Nova Lima, mostram que o desfecho trágico começou a se desenhar há três anos e que as medidas determinadas pela Justiça foram inúteis para proteger a vítima.
O Auto 188.12.000.552-8J detalha os dois pleitos dos advogados da procuradora, inclusive as ameaças de morte feitas por Djalma e os fatos que levaram o casal ao processo de separação. De acordo com a petição feita pelo advogado Murilo Andrade, Ana Alice alegava ter descoberto, há três anos, que o marido tinha uma amante. Desde então o casamento ficou abalado. Ela tentou manter a união pensando nos filhos, mas, no começo do ano passado, Djalma viajou sem informar destino e passou um mês fora de casa, de acordo com os documentos.
O fato levou o casal a uma rotina de desentendimentos, que culminou com uma briga, no dia 22, no clube que frequentavam. Djalma viu a mulher passando uma mensagem pelo telefone celular e a ameaçou, querendo saber para quem era o texto. Sempre segundo os autos, a briga prosseguiu na casa dos dois, à noite, momento em que o empresário, transtornado, teria quebrado o telefone da mulher e o notebook que ela usava para trabalhar. Também teria se apoderado de um modem e de um pen drive com documentação pessoal de Ana Alice.
Na representação, as ameaças que teriam sido proferidas por Djalma estão entre aspas: “Vou te dar um tiro na cabeça”; “você é uma vagabunda”; “vou te matar”. Adiante, o advogado da vítima descreve que em determinado momento, em casa, o empresário esquentou água no micro-ondas e jogou na direção de Ana Alice, atingindo-a parcialmente e a seu filho menor, embora sem gravidade. Ele também teria ameaçado colocar faixas ofensivas na rua onde a mulher trabalhava.
Diante dos argumentos, o juiz titular da Vara Criminal e da Infância e Juventude de Nova Lima, Juarez Morais de Azevedo, que tem 23 anos de magistratura, proferiu, já no dia 25, a seguinte sentença: “Concedo-lhe as medidas protetivas de aproximação da ofendida e de seus familiares pelo agressor, que deverá manter o limite mínimo de 30 metros de distância deles, assim como fica proibido de entrar em contato com os mesmos por qualquer meio de comunicação, frequentar determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da ofendida. Quanto às demais medidas requeridas, considerando se tratarem de providências mais drásticas, designo o dia 15/02 de 2012, às 13h, para oitiva da ofendida e de seu ofensor. Intimem-se. Notifiquem-se”.
Anteontem, um oficial de Justiça conseguiu intimar Djalma, fato que, de acordo com o advogado Murilo de Andrade, que defendia Ana Alice, pode ter levado o empresário a cometer o crime. No mesmo dia, mas às 18h30, o juiz Juarez Morais expedia outra sentença, ampliando as medidas protetivas. Nessa última decisão, o magistrado determinava o afastamento imediato do suspeito da casa da família e que ele mantivesse pelo menos 500 metros de distância da mulher. Não houve tempo de intimar o acusado, que seria notificado na manhã de ontem. Às 4h30, Ana Alice estava morta.
BATE-BOCA
Segundo relato recebido pela polícia, Djalma discutiu com a mulher momentos antes do crime. Não era algo novo na rotina do casal, como indica o processo que tramitava no Fórum de Nova Lima. Amigos da procuradora garantem que ela costumava reclamar da agressividade do companheiro e das crises de ciúme, que não poupavam nem a relação dela com os filhos, os meninos de 3 e7 anos.
Militares que atenderam a ocorrência informaram que o empresário entrou no condomínio por volta das 20h30. Não há informações se Djalma foi direto para a casa da família ou se passou antes pela casa de sua mãe, vizinha à do casal. Na madrugada de ontem, apavorada com a discussão entre os dois, a babá das crianças se trancou no banheiro com os meninos, temendo o pior. Passados momentos de muitos gritos e confusão, a funcionária deixou o cômodo e encontrou a advogada ensanguentada no quarto, com várias perfurações, de acordo com a polícia. Segundo a PM, a saída do empresário se deu momentos depois, por volta das 4h30. No fim a noite de quinta-feira foi encontrado morto em um motel.
A crise
. O casal se conheceu há 19 anos, quando ela tinha 16, e estava casado havia 13.
. Ana Alice relatou ter descoberto, há três anos, que Djalma a traía
. Há um ano, segundo a mulher, o empresário saiu de casa dizendo que ia viajar. Passou um mês fora, sem informar o paradeiro
. Em 22 de janeiro, Djalma teve uma crise de ciúmes e agrediu a mulher verbalmente, quebrando objetos pessoais dela. Ele também teria esquentado água no micro-ondas e atirado contra Ana Alice, segundo relatou a vítima
. Em 24 de janeiro, acreditando que a situação atingira um limite insuportável, Ana Alice prestou queixa contra o marido na Delegacia de Nova Lima
. No dia seguinte, o juiz Juarez Morais de Azevedo decretou medidas protetivas em favor da advogada
. Na quarta-feira, Djalma recebeu de um oficial de Justiça as determinações do juiz
. No mesmo dia, o juiz ampliava as medidas protetivas, a pedido do advogado da vítima, que as considerou insuficientes. A notificação seria entregue na manhã de ontem
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Aqui estamos nós... Um encontro diferente.
Um dia, ou numa noite aconteceu. Aniella conta o que lhe pareceu especial, porém, conhecendo a fauna que circula a sua volta, manteve-se alerta. Como ela mesma diz: “Logo aprendi que puta que se apaixona se dá mal”.
Foto da internet, sem crédito
A rua estava com pouco movimento, as meninas de sempre circulavam em seus territórios. De repente, como se surgido do nada, estava lá um rapaz. Alto, moreno, cabelos muito curtos e mesmo nas sombras da noite deu pra ver que era bonito, forte e tímido. Assim que o vi e senti seu interesse, apontei pra sandália e falei assim me desculpando pela posição estranha, o vestido arregaçado na coxa. Ele não disse nada, ficou me olhando. Então parei e o encarei. Foi aí que vi aquele olhar, como dizia a Juçara: o olhar de tu existes e eu não sabia. Na hora fiquei toda arrepiada, como se um calor me aconchegasse de um jeito muito especial. Esperei sem saber o que fazer. Olhei em volta e não vi carro nenhum. Era raro aparecer alguém ali, naquela rua, a pé.
Por um tempo que pareceu muito longo, ficamos nos olhando, fixo, um nos olhos do outro, uma espécie de imã nos atraia. Ele então fez um gesto com a cabeça, tipo vamos lá, virou-se e saiu andando. Fiquei em dúvida, deu vontade de me agarrar a ele e dizer, me leva. Mas lembrei das instruções do Washington: deem preferência aos clientes de carro, normalmente tem mais dinheiro e cuidado com os malucos que aparecem aos montes. Meu coração disparou, mas achei melhor esperar. Ele então parou, voltou e fez uma espécie de reverência, sem dizer nada, mas deixando claro o convite. Fui atrás, arrastando a tira da sandália. Uma das meninas viu e fez que não com a cabeça, ignorei.
Andamos pela calçada, menos de meio quarteirão, e ele parou diante de um prédio pequeno, mas arrumadinho. Abriu uma porta de ferro e vidro, pesada e me deu passagem. Tinha sido alertada dos perigos de ir a apartamentos que não fossem de hotéis e motéis, mas ele me atraiu com seus modos gentis e aquele jeito de me olhar.
Subimos ao segundo andar pelas escadas e entramos em um apartamento simples. Como ele não disse nada em momento algum, perguntei se ele era mudo. Ele riu e disse não. Desculpou-se com um gesto e apontou o banheiro.
Assim que entrei e fechei a porta, fui tomada por uma onda de entusiasmo. No mínimo era um cara diferente. Então me segurei e disse a mim mesma: Cuidado Ane, não se iluda, a felicidade é pra poucos...”
Continua...
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Aqui Estamos Nós...
Retomamos, a partir de hoje, as atualizações do Aqui Estamos Nós, a história da luta de Aniella Shimura, pela dignidade de ser mulher.
Neste capítulo, Ane, como é conhecida por seus clientes, fala de um momento que se repete na vida de quem trabalha neste mercado que vai muito além do corpo. Onde se vende prazer, mas na maioria das vezes recebe-se, em troca, maus tratos, indiferença e muita ilusão.
“Ao longo dessa vida, muitas vezes encontramos essoas que trazem grandes dúvidas. São os diferentes, aqueles que não querem apenas sexo, mas buscam interagir, conversar. Se mostram compreensivos, até carinhosos. As mais experientes costumam chamá-los de perigosos, por nos tirarem do objetivo, normalmente com falsas promessas, arroubos românticos cheios de carência. Além do mais, acabam por ficar mais tempo do que dispomos e depois somos nós que nos vemos com os nossos agentes, mais conhecidos como cafetões”.
Bonita, inteligente e sensual do jeito que ela é, vive passando por este tipo de situação. Peço que me conte uma ou duas passagens. Ela primeiro sorri com as lembranças que retornam. Depois me diz o seguinte:
“Eu nunca acredito em promessas de clientes. Muitos fizeram apelos prometendo mundos e fundos. Homens casados que dizem que vão deixar suas esposas e formar uma nova família, jovens arrojados querem fugir para bem longe e começar vida nova, e por aí vai. Já vi muitas garotas sofrerem desilusões irreversíveis, nunca mais foram as mesmas, como se uma doença as consumisse, a pior delas, a da frustração. Sempre preferi ser realista: estou nesta vida por não ter outra chance, mas a chance vai aparecer e quero estar inteira pra dar a virada”.
Até que um dia, aconteceu. Mas como tudo na vida dura dessas mulheres, nada é fácil...
Obs: Imagem da Internet, sem crédito.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Um Conto
Em
2007, o grupo que compunha o coletivo Bagatelas!, se uniu pra fazer homenagem
as livrarias prediletas. Cada um escolheu a sua e escreveu o seu conto. O
projeto de um livro, com os contos, infelizmente ficou pelo caminho. Este é o
meu.
O
nome do sebo, assim que o vi pela primeira vez, fez com que eu entrasse na
loja. Embora sempre tenha frequentado sebos, talvez instigado pelo nome,
descobri uma nova sensação, como se realmente mergulhasse em um mar de
histórias.
O
texto é ficcional, claro, mas a personagem é verdadeira.
A
saga de Aniella, em Aqui Estamos Nós, volta em janeiro, depois do dia 15.
Desejo
a todos um 2012, cheio de boas histórias.
BAIXINHA
Era a primeira vez que saía da
comunidade. Não estava especialmente animada, já conhecia o mundo inteiro, ou
quase. A cidade então, nem se fala, sempre tão bem mostrada em novelas e nos
telejornais.
Nascera e crescera ali. Bem,
crescera era modo de dizer ficara baixinha igual à avó, e esse era seu apelido.
A paralisia infantil atrapalhou um monte de coisas, mas a principal delas foi a
freqüência na escola. Esforçou-se por um tempo, mas as dificuldades eram
enormes e os colegas não ajudavam, as brincadeiras eram agressivas e a deixava
mais aleijada do que era.
Aprendeu a
juntar as letras e se tivesse tempo conseguia ler algumas palavras. Mas nada
disso importava, ainda era nova, dezesseis anos, aprenderia tudo na marra. Uma
coisa que aprendeu nesse tempo foi lutar. Toda sua família lutava pela
sobrevivência com muita garra, ela especialmente.
Seu pai, Antonio da Silva, era um
homem trabalhador e responsável. Veio de Pernambuco ainda criança, com
trabalho, conseguiu estudar, construir sua casinha e criar a família. Foi morar
na favela da Rocinha por conta de uma oportunidade imperdível. Na mesma semana
em que foi empregado como faxineiro em um prédio de Copacabana, o porteiro
estava para se aposentar e voltaria com a família para o Rio Grande do Norte.
Por isso vendia a casa em condições excepcionais. Antonio negociou a casinha em
Nova Iguaçu e comprou a tranqüilidade de ficar bem mais perto do trabalho.
Trouxe a família e ali a Baixinha nasceu.
Quando tinha seis anos, Baixinha
viu seu pai ser morto. Em sua cabecinha o pai morreu como herói, defendendo a
família. Nunca entendeu os motivos fúteis que cercaram o crime. O pai fora à
birosca com a filha mais velha, treze anos, o corpo já forjado no trabalho duro
de lavar e passar. Um garoto, pouco mais velho do que a filha, armado com um
revólver e por um poder exacerbado, conferido pelo chefe do tráfico de drogas,
se engraçou com a menina e não teve dúvidas, nem culpas, em descarregar a arma
no pai que puxou a filha para tirá-la dali.
A mãe, a irmã e o irmão, mais
velhos, trabalhavam fora, saiam cedo e voltavam no final do dia. Baixinha
cuidava da casa e do filho pequeno da irmã. Limpava, cozinhava, inventava
coisas para distrair o pequeno e preparava o jantar, sempre servido à medida
que cada um ia chegando, a irmã era sempre a última. E quando chegava não
queria nada com o filho. O irmão tentava fazer o papel de chefe da família, o
que provocava muitas brigas. Baixinha assistia aquilo tudo e sentia-se a mãe do
sobrinho.
Nas tardes quentes e arrastadas,
contava histórias para distrair a criança. Tirava idéias da televisão e
inventava casos mirabolantes com gente bonita, rica, chique e sempre de bem com
a vida. Contava e sonhava, imaginando-se no lugar de várias personagens, sempre
as boazinhas, as que no final da novela venciam.
Seu universo se dividia entre o
mundo da televisão e a realidade atrás da porta. Sempre que precisava sair de
casa para buscar alguma coisa na birosca, ficava apreensiva. Ainda que não se
lembrasse mais com clareza da morte do pai sentia um medo inexplicável. Não
gostava do que via e nem do que ouvia apesar de ninguém falar com ela.
Aparentemente nem a notavam, mas ela sentia hostilidade na indiferença, como se
não fizesse parte, não integrasse a comunidade. Por isso voltava rápido para
seu mundo, sua vida de responsabilidades com a casa, com o sobrinho, um mundo
só dela, de pura fantasia.
Uma noite, a mãe chegou muito
mais tarde do trabalho. Um fato nunca antes acontecido. Baixinha já estava à
beira do desespero, sem notícias. Na casa não havia telefone e só os irmãos
tinham celular de cartão. A comunicação só acontecia de viva voz. A mãe já uma
senhora de setenta anos, passou mal e a patroa a levou na emergência do
hospital e a deixou lá. Depois de horas aguardando na fila, fora examinada pelo
médico e aconselhada a ficar de repouso por alguns dias e a fazer uma rigorosa
dieta e levar uma vida mais saudável, a pressão estava muito alta. Era
importante fazer um exame completo de sangue.
- Liguei de lá mesmo para a dona
Valéria e disse que o médico passou essa receita. – Contou para os filhos que a
cercavam na mesa. – Mas ela não pode ficar sem ninguém lá, tem muito serviço.
Mas eu não to agüentando não. Passei muito mal. Aí eu disse pra ela que ia
mandar minha filha no meu lugar por uns dois dias enquanto eu descanso um
pouco.
Os três filhos se entreolharam. Quem iria substituir a mãe?
Os olhares caíram sobre a Baixinha. Ela sorriu encarando como brincadeira.
Mas como,
se nunca saíra da Rocinha? Não fazia a menor idéia do mundo lá fora. Nunca a
levavam a lugar nenhum, nem a praia que os irmãos iam com frequência aos
domingos.
- É minha
filha, nós não pode ficar sem o dinheiro e se num for ninguém a dona Valéria
arruma outra. Sua irmã tem o trabalho dela, e eu posso ficar com o neném, isso
eu posso.
Não tinha contestação, era assim
e pronto. A rotina voltou ao normal. Baixinha serviu a janta, lavou e secou os
pratos e as panelas, ajeitou as coisas, trocou o pequeno, fez a mamadeira e foi
para cama. Nessa noite nem inventou história pra dormir, sequer se imaginou
como a moça pobre que chegava na cidade grande a procura de parentes e de um
jeito de ganhar a vida. Sentia-se exausta e com o aperto no peito, o mesmo que
sentia quando ia à birosca.
De manhã bem cedo, ninguém falou
nada desnecessário. A mãe deu a Baixinha o dinheiro da passagem e ensinou qual
o ônibus pegar. Explicou, com detalhes, como chegar no apartamento de dona
Valéria, dando as referências.
- Fala com o trocador do ônibus
que você quer saltar perto da rua Hilário de Gouvêa. É perto do ponto.
Assim dito, foi cuidar do neto.
Baixinha pegou a bolsa da mãe,
conferiu o dinheiro para a ida e a volta, olhou sua certidão de nascimento, que
via pela primeira vez e conseguiu distinguir seu nome escrito em letra mais
escura. Leu baixinho e estranhou o som:
- Maria das Dores Silva.
Deu uma última olhada para a
casa e saiu.
Arrastou o pezinho torto em
direção ao ponto de ônibus, muito além dos limites com os quais estava
acostumada. Manteve a cabeça baixa e nos raríssimos momentos de silêncio podia
ouvir o próprio coração.
Pensava enquanto olhava de través
as pessoas que passavam por ela: “já conheço o mundo inteiro. A cidade então,
conheço tudo. Já vi na televisão, não tem diferença”.
Lembrou-se da moça da novela e
por alguns segundos levantou a cabeça e respirou fundo, sentindo um outro
estranho sentimento, que não tinha idéia que se chamava orgulho, e era bom. Ao
cruzar com o olhar de um homem que estava na janela de uma casa, voltou a
baixar a cabeça e a ouvir o coração.
Entrou no ônibus, lotado e
barulhento. As pessoas falavam alto e riam, e Baixinha ficou um pouco
atordoada. Mas assim que o ônibus começou a rodar descobriu uma coisa nova. Um
mundo novo passava diante dela. Era mais rápido e mais vivo do que a televisão.
Uma sucessão de imagens e cores, tudo em movimento mudando constantemente de
muro para casa, para mar, para céu, carros, gente, quanta coisa.
E o ônibus se meteu por umas ruas
cheias de lojas com coisas diferentes, panos, roupas, televisões, comidas. Tudo
passava rápido, mal dando tempo de reter as informações. Quando parava,
Baixinha ficava deslumbrada com tanta gente atravessando de um lado para o outro,
parecia que estavam perdidas sem saber para onde ir.
Bem mais adiante tudo foi ficando
mais lento. O ônibus começou a rodar aos trancos. Às vezes corria, outras vezes
andava muito devagar, até que parou no meio da rua, numa rua em decida, e
podia-se ver lá na frente um pedacinho do mar. Baixinha começou a olhar as
fachadas das lojas. Arriscou-se a ler os nomes, alguns inelegíveis, que ela
logo entendeu ser outra língua. Mas em uma delas estava escrito uma coisa que a
fez sentir um frio na barriga, uma emoção única. Leu com grande dificuldade,
mas conseguiu entender. Estava escrito: Mar de Histórias.
O ônibus andou e Baixinha quase
arrumou um torcicolo tentando ver o que havia
dentro da loja. O trânsito se mexeu de repente, não conseguiu ver nada.
Seguiu repetindo o nome Mar de Histórias, e nada mais a interessou. Ficou
atenta apenas na indicação do trocador e saltou no ponto indicado.
Dona Valéria não gostou muito do
que viu a sua porta. Acostumara-se com os serviços da mãe da Baixinha, que já
trabalhava pra ela há mais de dez anos. Como uma aleijadinha daria conta do
recado. O apartamento era grande, os filhos pequenos e bagunceiros e ela e o
marido gostavam de tudo muito limpo e organizado. A comida tinha que ser feita
no dia e ainda precisava comprar coisas no supermercado.
Demonstrou seu descontentamento e
passou as ordens, de um jeito seco. E era muita coisa mesmo para fazer.
Baixinha nem se preocupou, trabalho era como outras coisas que não podia deixar
de fazer, como respirar e comer. Apanhou o material de limpeza e começou a
faxina. Uma coisa boa fazia seu peito arder toda vez que se lembrava do nome
escrito numa placa grande sobre a loja, Mar de Histórias, repetia e vinha a
dúvida: teria lido direito. Foi tão rápido e com tanta coisa acontecendo a sua
volta. Ainda bem que voltaria à casa de dona Valéria no outro dia, poderia ler
de novo e confirmar. Mas o que seria aquilo? O que poderia ter dentro de um
lugar chamado Mar de Histórias? Todas essas questões ocupavam seus pensamentos
e o dia passava e ela cumpria as tarefas.
Dona Valéria saiu logo após dar
às ordens e só voltaria no final do dia, já com os filhos. Queria tudo muito
bem arrumado e a comida prontinha. O marido chegava do trabalho muito cansado e
gostava de comer antes do telejornal. Baixinha ouviu e pensou: “esse povo rico
é igual a gente, sem tirar nem por.” Fora o tamanho do apartamento, as coisas
de luxo, como o sofá branquinho e enorme na sala, o resto era igual também,
pior, nem vista tinha. Todas as janelas davam pra alguma outra janela. O
barraco pelo menos tinha um visual de fotografia. E ela limpava, arrumava,
espanava, ajeitava e nem precisava prestar muita atenção no que fazia, podia
pensar e tentar adivinhar o significado do nome. Mar ela sabia muito bem o que
era, via todos os dias lá do morro. Nunca entrou na água, mas prestava atenção
na conversa dos outros e sabia como era, o sal, as ondas. História também
sabia, não era o que ela vivia inventando para contar ao sobrinho? Agora, como
seria um mar de histórias? Sua cabeça chegava a doer em busca de uma explicação
plausível.
Muito antes da hora marcada já
estava com tudo pronto. E quer saber? Ficou tudo muito melhor e mais arrumado.
Sua mãe era boa faxineira, mas já estava velha e cansada. Sentou na sala para
esperar. Ficou olhando para uma televisão estranha, muito grande e reta.
Aproximou-se para ver melhor, era engraçada, não tinha aquela caixa atrás. Não
achou como ligar. Sobre a mesinha de centro viu quatro controles remotos, de
formatos estranhos. Resolveu não mexer. Não era direito.
Na hora marcada dona Valéria
chegou com os filhos. Dois meninos lindos e curiosos. Olhavam pra ela rindo meio
disfarçado toda vez que ela andava. Olhavam para seu pezinho torto e a perna
mais fina. O maior de nove anos era do tamanho dela. Achou os meninos educados
e nem ligou para os olhares, estava acostumada a ser diferente. “Menino rico
raramente vê gente aleijada”. Conversou com eles sobre a escola e eles
responderam rindo, eram realmente muito educados. Dona Valéria passou a casa em
revista, sempre com Baixinha a segui-la esperando alguma reclamação. Mas a
patroa parecia satisfeita, mesmo não dizendo nada. Foram à cozinha. Destampou
as panelas, cheirou, passou pela mesa, trocou alguns talheres de lugar e
finalmente olhou assim meio rápido para a Baixinha e disse:
- Você vem amanhã na mesma hora,
sem atrasos, por favor. E diz pra sua mãe procurar o médico e descansar o
máximo possível.
E nada mais.
Os meninos
riram, e Baixinha saiu arrastando o pezinho. Segurou o medo na
hora de entrar no elevador, que a deixara enjoada quando
subiu. Lá no fundo uma sensação diferente a fazia sentir-se bem, nunca fora
elogiada, experimentava a sensação boa do dever cumprido.
No
ônibus ficou atenta a janela. Será que passaria de novo em frente ao
Mar de Histórias?
Foi
uma noite longa. Deitou-se tarde, depois de lavar os pratos e panelas e
arrumar a cozinha. Não falou com ninguém. Quando chegou sua
mãe assistia à novela, o menino já dormia e os irmãos haviam saído. Assim que
deitou dormiu, mas teve um sonho esquisito, estava no mar e tentava contar uma
história para os filhos da patroa, eles riam e nadavam pra longe dela. Tentava
alcançá-los, mas as ondas a empurravam de volta. Até que afundou e mergulhou em
um silêncio de morte. Acordou assustada e sem ar. Só foi conseguir dormir uma
hora antes de o despertador tocar.
No
ônibus foi conversando com um rapaz conhecido de vista, ele também
trabalhava em Copacabana, entregava pizza. Era bonito
demais, apesar da falta de dentes e da pouca atenção que dava a ela. Conversava
atenta ao exterior, queria ler de novo o nome mar de histórias. Pensou em
perguntar ao rapaz se ele sabia o que era, mas teve vergonha. Dessa vez o
ônibus passou rápido e nem viu o letreiro, apesar de reconhecer o lugar. Mas
não importava, um dia ia entrar lá, o lugar era dela. Riu do pensamento, estava
feliz. Isso ela percebia.
Sabia
agora que não conhecia muita coisa. O mundo possível era muito
maior do que ela imaginara. Entendia mais as novelas, os
filmes e tudo que via na televisão. O mais surpreendente foi descobrir que
fazia parte da história, era uma personagem de verdade e não uma inventada por
ela em seus devaneios. Eram confusos os pensamentos e cada viagem que fazia, indo e voltando para o
trabalho, virava uma aventura, um desbravamento. Tornara-se uma pessoa. Dona
Valéria continuava demonstrando sua indiferença, mesmo não perguntando mais
pela mãe dela e confiando, cada vez mais, mandando-a fazer compras.
Ao final do primeiro mês de
Baixinha no lugar da mãe, dona Valéria pagou o
salário. Ao conferir em casa, a mãe notou que havia uma
diferença de cem reais. Desconfiou da filha, inquiriu, acusou e fez Baixinha
chorar. Então teria que questionar a patroa, dizer que estava faltando. Muito
sem graça, com um medo danado, mesmo assim Baixinha perguntou e ouviu a
resposta:
- Quando sua mãe voltar eu pago
integral.
Achou
justo. A mãe não gostou, mas também não disse nada. Fazer o quê?
Tempos depois a viagem de ônibus
já não tinha tanta graça. Nunca mais
pararam em frente ao Mar de Histórias. Passavam rápido, ou
quando parava, não dava pra ver. Muitas vezes viajava em pé, no meio de uma
gente sem modos, que não prestava atenção nela, pisando, empurrando, amassando.
Mesmo assim seu coração disparava quando percebia a aproximação da rua do Mar
de Histórias. Aliás, sua grande tristeza é que já não conseguia criar suas
histórias. Não tinha mais tempo, nem cabeça. O trabalho era duro e cansativo.
Já não assistia à televisão e nem sonhava mais. Cansada, deitava e dormia
profundamente.
Um dia sua mãe morreu. De
repente. Não acordou. Foi um dia tumultuado e muito
triste. Mas as coisas foram resolvidas de maneira rápida, a
irmã foi com o filho morar na casa do namorado, um dos soldados do tráfico. O
irmão passou a chefe da casa, exigindo mais capricho da Baixinha na limpeza e
na comida.
Naquele mês, dona Valéria
descontou o dia em que Baixinha não foi trabalhar, por
conta do enterro da mãe. Tudo bem, ela pensou, mas sentiu
uma coisa que cada vez mais ocupava sua cabeça, e ela sabia muito bem que era
raiva. O pior foi numa sexta-feira, véspera do aniversário de um dos filhos da
patroa. Assim que chegou encontrou na cozinha uma moça bonita, uniformizada,
preparando salgados e doces. Baixinha se empolgou pensando na festa. No final
do dia dona Valéria veio falar com ela:
- Amanhã não precisa vir. Pode
tirar de folga.
Mesmo cansada não dormiu à noite. Sua
cabeça não dava trégua, odiava aquela mulher com todas as forças. E os filhos,
sempre rindo e falando nas costas, cuidando pra que ela ouvisse as gracinhas:
“Lá vem a deixa que eu chuto.” “Ponto e vírgula, ponto e vírgula.” Diziam às
gargalhadas. Seu coração apertado envenenava-se cada vez mais. Foi ver
televisão na madrugada em busca do sono e de outras fantasias. Assistiu a um
filme sem prestar atenção, a não ser quando a empregada resolveu matar a
patroa. Já não discernia entre ficção e realidade. Era outra pessoa, todas as
imperfeições do mundo caíram sobre seus ombros. Passou a agir pelo instinto de
sobrevivência. Algo martelava seu cérebro, aconselhando a mudar o rumo das
coisas. Se o mundo ria dela, se a vida a fez diferente, se a realidade a
maltratava mudaria isso. Vingaria a própria existência.
O dia a
pegou na cozinha, olhos fixos na faca, grande e afiada, que usava para os
cortes mais precisos. Não demorava a pegá-la pela dúvida, mas pela visão
antecipada do que tinha que fazer. Colocou a faca na bolsa. Procurou entre as
roupas que a irmã deixara para trás e escolheu a mais bonita, afinal ia a uma
festa. Teve trabalho para ajustar o vestido bem maior do que seu pequeno
número. Olhou-se no espelho mofado e odiou mais ainda a vida.
O ônibus àquela
hora, mais barulhento, estava cheio de pessoas alegres e descontraídas a
caminho da praia. Mais do que nunca Baixinha se sentiu invisível. Conseguiu
sentar junto à janela, mas não prestava atenção nas coisas que passavam
rápidas. Estava determinada e um vazio ocupava sua cabeça, expulsando qualquer
pensamento. Teve vontade de chorar sem saber muito bem por que. A raiva, o
ódio, eram sentimentos recém-adquiridos, tão desconfortáveis. No entanto tinha
noção que dali por diante, seriam companheiros inseparáveis. Não pensava no
futuro, nas conseqüências, mas intuía coisas ruins. Algum dia por acaso vivera
coisas boas? Aliás, na realidade, o que eram coisas boas?
O trânsito
era mais livre aos sábados, o ônibus seguia rápido e o motorista parecia
entender a aflição de sua passageira, fazendo manobras arriscadas, costurando
por entre os carros que passeavam no dia de sol. Vez por outra Baixinha enfiava
a mão na bolsa e apertava a lâmina da faca a ponto de se cortar, o gesto
revigorava sua tensão, a mantinha alerta e nutria sua raiva. Antevia a cena,
ouvia gritos misturados com choros e podia ver muito sangue. Chegou a sentir o
gosto do sangue da vítima, sem se dar conta que mordia o lábio.
O sinal fechou e o ônibus parou bruscamente. Assustada
Baixinha olhou pela janela e lá estava de novo o letreiro Mar de Histórias. Riu
internamente e pela primeira vez na sua vida repetiu um palavrão que seu irmão
sempre dizia: “que merda”. O sinal demorou a abrir e seu coração deu um salto
ao ver uma pessoa entrando pela porta de vidro. Levantou-se impulsionada pelo
velho sonho e pela curiosidade até então esquecida. Saltou no próximo ponto e
andou determinada, esquecendo-se da dor que recentemente voltara a sua perna
doente.
Parou diante da porta. Leu acima
da porta: Livraria Mar de Histórias. Não pensou em nada, era movida por uma
emoção muito maior do que tudo que a levara até ali. Entrou.
Deparou-se com centenas e
centenas de livros e revistas, numa desordem fascinante.
Lombadas e capas multicoloridas, milhões de letras e
palavras. Não sabia direito o que significava aquilo, mas seu coração bombava
com tal vigor que sentia a cabeça dilatada, uma pressão na nuca e no peito, imergia
em outro mundo, um mundo acolhedor, aconchegante. Passou as mãos pelos livros e
olhou para as pontas dos dedos, emocionada, quase adivinhando o que havia
dentro daquelas capas empoeiradas.
O vendedor
olhava desconfiado. Aproximara-se devagar e ao falar provocara nela um
sobressalto.
- Você veio
pelo anúncio?
Baixinha não entendeu e o viu
apontando para a vitrine. Nesse momento o vendedor foi solicitado por um
cliente. Ela foi olhar o papel preso na vitrine. Viu letras escritas de um
jeito muito estranho. Saiu para a calçada e aí sim, conseguiu ler juntando letra
por letra: Precisa-se de faxineira. O vendedor voltou a falar com ela:
- Realmente está tudo muito sujo,
empoeirado. Tem muito trabalho.
Ela olhou para o homem
completamente careca na sua frente, ficou nervosa e teve uma vontade enorme de
rir. Mal conseguiu falar.
- O que tem nesses livros?
- A grande maioria é romance,
estórias de amor, essas coisas. - Respondeu o
vendedor, com simpatia. – O trabalho é diário e o salário
não é grande coisa, mas também não é ruim. – Completou.
Baixinha olhava cada vez mais emocionada para tudo aquilo.
Balbuciou:
- Então
isso é um mar de histórias?
- É. Todas as histórias estão aí.
– Disse o vendedor fazendo graça num gesto vago.
- Posso ler, eu não sei ler
direito, - apressou-se em dizer Baixinha, - mas posso ler quando terminar a
faxina?
O vendedor riu.
- Pode, mas
só se começar a trabalhar logo.
Ela riu e fez que sim com a
cabeça, deixando escapar uma lágrima, que despistou.
- Posso
começar agora. – Quase gritou.
- Tem algum
documento aí?
Ela enfiou a mão na bolsa para
pegar a certidão de nascimento e seu dedo encontrou a lâmina afiada da faca.
Com o dedo sangrando passou o
documento para o vendedor.
- Você vai gostar de trabalhar
aqui é muito divertido. – Disse o homem se afastando.
- Vou dar meu sangue. –
Respondeu Baixinha levando o dedo à boca, sentindo o gosto do próprio sangue.
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