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quinta-feira, 12 de julho de 2012

Vem aí O SITE


Muito em breve será colocado, NO AR, o site, que para meu orgulho é construído por Natália del Cueto Simas. Nele a interação será maior, os textos do blog continuarão a ser postados normalmente, contos e trechos dos livros disponibilizados, imagens e uma seção para quem quiser postar seus textos e ideias. 
Brevemente também os livros serão vendidos no próprio site, com descontos e entrega rápida.


                 Então, aguardem, não demora muito.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Mulheres na Rio+20 denunciam violação dos compromissos assumidos na Eco 92


                                                            Foto da internet, sem crédito.

Do Território Global das Mulheres na Cúpula dos Povos para a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20)

Nós, de organizações feministas e de mulheres de diferentes países, reunidas no Território Global das Mulheres da Cúpula dos Povos, nos manifestamos frente aos governos que participam da Rio+20 para denunciar a sistemática violação dos compromissos mínimos assumidos na Eco 92 e as falsas soluções para alcançar o desenvolvimento sustentável baseadas na financeirização da natureza e no aprofundamento de um modelo de produção e consumo que é desigual e insustentável. A necessidade de lidar com os limites que a natureza impõe torna ainda mais dramáticas e urgentes as decisões governamentais para enfrentar as causas estruturais da crise sistêmica.

O sistema capitalista, em crise, prossegue explorando os bens comuns, privatizando os recursos naturais e mercantilizando o acesso aos direitos. Uma crise que tem suas raízes na perversa combinação entre capitalismo, patriarcado e racismo - sistemas que estruturam as desigualdades e injustiças pela militarização, pela divisão sexual do trabalho, pelo racismo ambiental, pela violação dos corpos das mulheres, entre outras formas de dominação e exploração no planeta e em nossas sociedades.

Esta crise e civilizatória. Abarca elementos econômicos e financeiros, mas também políticos, ambientais, culturais e sociais. Resulta na destruição da biodiversidade e dos recursos naturais, ao mesmo tempo que permite a consolidação de novas formas do patriarcado, incentiva e sustenta a criminalização da ação dos movimentos sociais.

Rechaçamos a imposição de um modelo econômico e de desenvolvimento que gera ao mesmo tempo que acirra as desigualdades, que destrói a natureza e a mercantiliza inventando, cinicamente, uma “economia verde” que aumenta as taxas de crescimento e de lucro para os mercados. Um modelo que prefere salvar os bancos e os banqueiros embora a precariedade e o desemprego deixem nas ruas milhões de pessoas. Um modelo baseado no lucro e na competição no qual, mais importante do que a cidadania das pessoas, e sua qualidade enquanto consumidoras. Um sistema que para sair da crise que ele próprio gerou, se apoia em forças retrógradas e fundamentalistas.

Os movimentos de mulheres e o movimento feminista participaram ativamente desde a Eco 92, lutando todos os dias para efetivar os direitos humanos, em particular os direitos das mulheres, e questionando as bases do sistema capitalista. Nossos movimentos não se calaram durante todos esses anos, quando muitos governos e organismos internacionais não fizeram a sua parte e tampouco prestaram contas sobre os compromissos assumidos na Rio 92.

Hoje, na Rio+20, viemos denunciar a evidente tentativa de retroceder em relação à garantia de direitos e à justiça socioambiental. Conclamamos representantes dos países na Rio+20, em especial o governo brasileiro, que coordena neste momento as negociações, a manter o compromisso com os direitos humanos já conquistados, inclusive os direitos sexuais e reprodutivos, assumindo a obrigatoriedade da sua efetivação com políticas públicas universais.

Repudiamos a ação ilegítima do G20 que, ora reunido no México, pretende impor um pacote de medidas predefinidas. São medidas que sequestram a democracia de um sistema internacional multilateral, instaurando uma agenda de aprofundamento da financeirização do sistema econômico e mercantilização dos direitos. São medidas que configuram uma captura corporativa das Nações Unidas por parte dos empreendimentos multinacionais que pretendem substituir por serviços, os direitos que devem ser garantidos pelos Estados.

Reivindicamos que os governos e organismos internacionais presentes à Rio+20 não retrocedam em relação aos compromissos assumidos pelos Estados, em termos de direitos humanos. Instamos os Estados-membros presentes nessa Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável a tomar medidas efetivas e alocar os recursos necessários para fazer cumprir o que foi pactuado na Eco 92, Viena 93, Cairo 94, Beijing 95, Durban 2001.

Demandamos a efetivação dos direitos humanos, individuais e coletivos, direitos sociais, culturais, ambientais, direitos reprodutivos, direitos sexuais de mulheres e meninas, direitos econômicos, direito à educação, direito à segurança e soberania alimentar, direito à cidade, à terra, à água, direito à participação política equitativa e igualitária.

Rechaçamos a falsa solução apresentada pela chamada “economia verde”, um instrumento que acirra ao invés de fazer retroceder o impacto destruidor da mercantilização e da financeirização da vida promovidas pelo capitalismo.

Finalmente, afirmamos que não validamos os compromissos governamentais concebidos sob a forma de programas mínimos, contraditórios com a responsabilidade pública assumida pelos governos e organismos internacionais com relação à garantia dos direitos humanos das mulheres. Não aceitamos paliativos, que deixam intocadas as causas estruturais dos problemas sociais, econômicos e ambientais, reproduzindo e agravando as múltiplas formas de desigualdades vividas pelas mulheres, assim como as injustiças socioambientais. Não nos bastam os objetivos reduzidos, como os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio-ODMs, e tampouco nos bastam os objetivos que ora se propõem com as Metas de Desenvolvimento Sustentável. Uma proposta que se impõe no vácuo da menção aos direitos humanos, abrindo caminho para a privatização de sua efetivação. Demandamos a efetivação dos direitos de todos os povos do mundo a seus territórios e seus modos de vida. Defendemos o direito de nós mulheres à igualdade, autonomia e liberdade em todos os territórios onde vivemos e naqueles onde existimos, ou seja, nossos corpos, nosso primeiro território!

Rio de Janeiro, 19 de junho de 2012.

Indicação de fontes:
Beatriz Galli – advogada e integrante das comissões de Bioética e Biodireito da OAB-RJ
(21) 8723.8223
Guacira de Oliveira – socióloga do Cfemea (Centro Feminista de Estudos e Assessoria) e integrante da Articulação de Mulheres Brasileiras
(61) 3224.1791 / 9984.5616

terça-feira, 12 de junho de 2012

Manifestação das Mulheres na Cúpula dos Povos

As mulheres presentes na Cúpula dos Povos convocam uma manifestação feminista para o dia 18 de junho, às 10h, no Museu de Arte Moderna (MAM). O objetivo é mostrar o posicionamento feminista de crítica global às falsas soluções propostas para a crise atual, representada pela ‘economia verde’.

A visão comum das mulheres é que deve ser construído outro modelo de produção-reprodução e consumo, baseado em outro paradigma de sustentabilidade da vida. Por isso, como sujeitos ativos no processo da Cúpula dos Povos, as mulheres se posicionam contra a mercantilização da natureza, em defesa dos bens comuns. Defendem, também, a liberdade, a autonomia e soberania das mulheres sobre seus corpos e suas vidas e demandam voz ativa em todos os processos de decisão sobre as políticas em geral.

Data: 18/06/2012
Horário: 10h
Local: Museu de Arte Moderna (MAM) Rio de Janeiro/RJ

terça-feira, 24 de abril de 2012

Formas de violência contra a mulher - Desafio

Do Globo on-line.

Caso de estupro abala universidade federal em JF

Denúncia reacende debate sobre sexismo e violência no ambiente acadêmico



Corredor da UFJF: trotes preconceituosos contra a mulher chamam atenção
Foto: O Globo / Paula Giolito

Corredor da UFJF: trotes preconceituosos contra a mulher chamam atenção O Globo / Paula Giolito
JUIZ DE FORA (MG) - Não se fala em outro assunto no bucólico campus da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em Minas Gerais. A polícia investiga a denúncia de estupro de uma estudante dentro do Instituto de Artes e Design (IAD), na noite da sexta-feira 13, há dez dias. Explosiva por si só, a notícia se espalhou pela cidade de pouco mais de 500 mil habitantes, a cerca de 180 quilômetros do Rio, e reacendeu o debate sobre sexismo, velocidade das investigações, trotes discriminatórios e temores com a violência entre jovens.
Focos feministas, seguidos por alguns setores da universidade, fizeram barulho em redes sociais e listas de discussão na internet exigindo apuração da denúncia e mostrando casos de trotes ofensivos contra mulheres. Pais de estudantes reforçaram os avisos para que seus filhos universitários não se envolvam em “festas perigosas”, enquanto a reitoria promete investigar tudo e proibiu, por ora, eventos festivos do tipo da festa do dia 13. Alunos mostraram preocupação com a ausência de debate sobre o caso dentro da UFJF; outros acham que a vítima — uma adolescente 17 anos que cursava o primeiro período — bebeu demais e se expôs excessivamente. Marcado por conquistas libertárias, o movimento estudantil vive, em Juiz de Fora e em outras cidades do país, às voltas com denúncias de práticas retrógradas.
As discussões convergem para um pergunta: como tratar denúncias de estupro e de violência contra a mulher dentro do ambiente universitário? Até as polícias Federal e Civil bateram cabeça num primeiro momento, já que se trata de um crime registrado dentro de instituição federal. As investigações só começaram na quarta-feira passada, e, até a sexta-feira, os exames médicos ainda não haviam chegado às mãos da delegada da Polícia Civil de Minas que assumiu o caso.
A conselheira tutelar Delfina Mônica Costa esteve com a jovem no dia seguinte à festa, à espera que os pais chegassem do interior de São Paulo, onde a família vive. A estudante trancou a matrícula e voltou para casa.
— Ela diz ter tomado um copo de cerveja e três ou quatro copinhos de “gummi”, uma bebida feita com vodca e suco (solúvel). Afirma também que havia uma bala (tipo drops) dentro do copo. A partir do momento em que tomou, ela conta ter perdido a consciência e só se recorda de flashes, com alguém a levando à força para um corredor dentro do próprio instituto. Depois, teve forças para voltar se arrastando para o meio da festa, onde encontrou as colegas. As veteranas a levaram para a pensão e deram-lhe um banho — diz Delfina, ao lembrar o que disse a jovem, que só foi ao hospital no dia seguinte, à tarde. — Ela não tinha a noção de que o conselho tutelar ou a polícia seriam acionados, não queria que os pais soubessem. A médica nos acionou por conta do suposto abuso. Ela foi realmente estuprada porque teve rompimento do hímen, sangramento. Então (o caso) dela foi estupro. É a minha visão.
A UFJF tem 18 mil alunos e, na última sexta-feira, a equipe do “Globo a Mais” conversou com vários deles. Os estudantes do IAD foram os únicos que preferiram não conceder entrevista. Apenas uma funcionária do instituto, que pediu para não ser identificada, relatou que não acredita em estupro porque a jovem teria entrado num carro com outros estudantes e saído do campus. Na faculdade de Biologia, a aluna Ana Carolina Mercês, de 20 anos, conta ter ouvido conversas estranhas no ônibus que passa dentro do campus:
— Desagradou a mim ouvir pessoas dizendo que ela bebeu demais e fez porque quis, que não foi vítima. É um preconceito. Não diriam isso se a história fosse com a própria filha. Reflete, no fundo, uma visão machista. Isso mostra a necessidade de se trabalharem esses assuntos. Já deu, chegou a hora — cobra a jovem.
— Minha avó soube da história e disse que eu só podia andar na rua em bando — conta Nara Lopes, de 20 anos, também da Biologia.
O campus da universidade é privilegiado, com 1,3 milhão de metros quadrados. Há espaço de sobra, tanto para os estudos quanto para festas, com diversos pátios internos, áreas verdes e prédios espaçados. Um lago no centro do terreno é uma das marcas da UFJF. Como em qualquer universidade, outra marca são os trotes. Nos últimos tempos, porém, a recepção de calouros tem recebido críticas, principalmente pelo tratamento dado às mulheres. Um trote recente da turma de Comunicação fez com que as meninas usassem placas com os dizeres “cara de sapatão” e “cara de puta”.
— Como mulher, mãe, lésbica e professora, tenho a dizer que esses trotes são a expressão do preconceito que ainda não tem, em alguns casos, criminalização certa e prevista em lei. Você não tem alunos negros carregando placas pejorativas em relação à sua negritude, ainda bem. Mas, se tivesse, esses alunos sabem que já há lei que penaliza isso — diz Daniela Auad, professora da Faculdade Educação. — O trote ocorre a partir de veteranos de uma faculdade que tem um diretório acadêmico chamado Vladimir Herzog. Sempre que há violência contra a mulher, é preciso ter apuração e punição. Silenciar diante disso e não se responsabilizar é agredir novamente todas as mulheres.
O Diretório Acadêmico (DA) de Comunicação Social tem paredes pintadas por grafites e videogames ligados à televisão. Sobre a geladeira, algumas garrafas de cachaça e vodca, aparentemente em uso, embora não se saiba se o conteúdo era de bebida alcoólica. Na porta, uma placa com o nome do diretório em homenagem a Vladimir Herzorg, jornalista morto em 1975, durante a ditadura militar.
Igor Rodrigues, do terceiro período, faz parte do DA, embora não responda por ele. Para o estudante de 20 anos, não há problema algum em relação aos trotes:
— Ninguém é obrigado a participar. Dei o trote e me senti lesado (com as reclamações). Todos têm o direito de não querer ir, e quem vai sabe como é. Não é o objetivo humilhar ninguém. Acho o machismo um problema absurdo.
Por outro lado, a colega de curso Valéria Fabri, de 19 anos, ficou incomodada com algumas brincadeiras do trote de que participou como caloura:
— Escolhi participar porque é um rito de passagem, mas não sabia do que chamam de inquisição. Eles te colocam numa cadeira, com os veteranos em volta, só para humilhar, fazendo perguntas como “engole ou cospe?”, coisas assim. Te pegam no corredor e levam para a sala. Acho ruim porque não perguntam. Te buscam na hora da aula.
A delegada Maria Isabela Bovalente Santo, da delegacia de Orientação e Proteção à Família e responsável pela investigação, ainda não tem um suspeito. Segundo ela, as investigações estão apenas no início:
— O laudo (médico) ainda não chegou às minhas mãos. A vítima disse ter sido estuprada, a versão dela é essa. Então foi aberto um inquérito para apurar um estupro, mas ainda não há indiciamento. Vamos colher o maior número possível de provas sobre o que aconteceu. Por que essa menina está se dizendo vítima? O que aconteceu nessa festa? Algo aconteceu. Agora, eu não tenho condições de afirmar que foi um estupro. Contamos com a colaboração da vítima, que sabe de alguns traços físicos (do agressor). Temos um prazo de 30 dias, que pode ser prorrogado.
O reitor da UFJF, Henrique Duque, instaurou, na sexta-feira passada, uma comissão de sindicância para apurar, em sigilo e no âmbito da universidade, a denúncia. Também ficou decidido que estão suspensos, temporariamente, os eventos festivos na UFJF que não estejam relacionados às atividades fins da instituição.
— Como reitor e pai, lamento. Tivemos a oportunidade de ligar para o pai da pessoa, que me pareceu, pela conversa, alguém muito sensato, de muito equilíbrio. Queremos apurar a fundo e chegar a quem fez e onde foi feito. Há uma dúvida ainda. O pai também quer investigação — disse o reitor, que também comentou sobre o comportamento de estudantes em trotes — Este ano houve lá fora (da universidade) uma coisa de discriminação. Fiquei assustado e muito surpreso com aquele tipo de comportamento no trote (das placas com frases pejorativas). Nós, que somos educadores, sabemos que é uma mudança de comportamento, que vem da educação. É uma coisa que preocupa muito. Ninguém é contra um trote que marque a passagem do aluno. Já tive conversas com o Ministério Público Estadual, e estamos falando diretamente com o MP Federal. A ideia é que, neste semestre, antes do próximo vestibular, tenhamos uma resolução para limitar esses problemas.
O pai da jovem, que já tem um advogado para tratar do caso, aguarda as investigações, embora mostre alguma descrença:
— Minha filha tem 17 anos e passou em três universidades públicas e duas particulares. Sempre esteve entre as melhores alunas. Achamos que era melhor (na UFJF) porque nos preocupávamos mais com a segurança. Achei uma república na porta da universidade. Ela nunca tinha namorado, não saía de casa e nunca havia bebido. Estão querendo dizer que (o crime) foi fora (do campus). Se foi mesmo, alguém viu, e eu também quero ver o circuito interno (as câmeras), então. Minha filha está quieta, não quer ver ninguém e está fazendo tratamento com remédios. Estava há apenas 45 dias na cidade. Estou esperando o prazo dado pela polícia, dando um crédito, mesmo achando que é difícil resultar em alguma coisa.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/caso-de-estupro-abala-universidade-federal-em-jf-4719165#ixzz1sxcNTlkk
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terça-feira, 27 de março de 2012

Aqui estamos nós... Um encontro diferente. (continuação 2)


Um mês atrás falávamos aqui do encontro de Aniella, pela primeira vez, com um rapaz diferente dos outros. Queria entender o que fazia a diferença. Só para relembrarmos as últimas palavras dela:

- Então o que fez a diferença?
“Não foi na primeira vez, não. Quer dizer, naquela noite alguma coisa explodiu lá dentro. Não foi exatamente um orgasmo. Por incrível que pareça, foi melhor. Me senti segura, embora ele continuasse sem dizer nada. Me assustei quanto ele saiu de cima de mim, virou de lado e pegou uma arma, e ficou lá lustrando o ferro que já brilhava. Não sei, mas ao invés de medo, logo entendi que aquele rapaz, magro, alto e bonito, fazia parte do meu mundo”.
- E depois, o que aconteceu? Insisti.
- Foi estranho, porque ele sumiu. Passou um longo tempo até que reapareceu. Contra todas as regras da profissão, não consegui tirar da cabeça os momentos passados com ele. Sei lá, mas o jeito dele, mesmo parecendo assim, distante, em outro mundo, tinha um quê de carinho. Mais até do que isso, de cumplicidade. Pareceu, pelo menos aquela noite, que ele entendia a coisa mais difícil da profissão, a solidão que arrasa a gente depois que a noite acaba. Bateu em mim, que sofríamos do mesmo mal.
- E quando reapareceu como foi?
- Eu sabia que ele foi lá na rua me procurar. Seu rosto, quando nos encaramos, revelava mais do que o desejo urgente de sempre. Tinha alguma coisa no jeito dele de olhar que me ganhou.
- O que era essa coisa?
- Ah, nem sabia que existia, mas é o tipo da coisa que aprendemos rápido. Era ternura.
- Então a partir daí foi uma paixão?
- Na verdade, não. Esse tipo de sentimento é muito perigoso. Deu foi um medo danado. E esse encontro coincidiu com o pior período que passei. Nem sei como sobrevivi.

Aniella fala sobre o tal período na próxima semana.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Aqui estamos nós... Um encontro diferente. (continuação)


Aniella se lembrou do encontro com um rapaz, considerado como diferente dos demais. Para rememorarmos suas últimas palavras:

“Subimos ao segundo andar pelas escadas e entramos em um apartamento simples. Como ele não disse nada em momento algum, perguntei se era mudo. Ele riu e disse não. Desculpou-se com um gesto e apontou o banheiro.
Assim que entrei e fechei a porta, fui tomada por uma onda de entusiasmo. No mínimo era um cara diferente. Então me segurei e disse a mim mesma: Cuidado Ane, não se iluda, a felicidade é pra poucos...”

- Como assim diferente? – Perguntei.

“Normalmente os homens fazem mil perguntas, desconfiam, se mostram exigentes e superiores. No final acreditam, ou querem acreditar, em tudo o que a gente diz. Aquele rapaz, não. Seu jeito era tímido, fechado. Dava a impressão de estar agradecido por eu ir com ele. Tinha lá suas manias, mas quem não tem?”

- E a relação, na cama, alguma diferença?

“No início não. Apressado como a maioria e preocupado apenas com ele. Sabe, né? Mas isso pra gente é bom. Quanto mais rápido melhor, mais clientes por noite, mais faturamento”.

- Então o que fez a diferença?
“Não foi na primeira vez, não. Quer dizer, naquela noite alguma coisa explodiu lá dentro. Não foi exatamente um orgasmo. Por incrível que pareça, foi melhor. Me senti segura, embora ele continuasse sem dizer nada. Me assustei quanto ele saiu de cima de mim, virou de lado e pegou uma arma, e ficou lá lustrando o ferro que já brilhava. Não sei, mas ao invés de medo, logo entendi que aquele rapaz, magro, alto e bonito, fazia parte do meu mundo”.

Continua...

Imagem da internet, sem crédito.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

Aqui estamos nós... diante de mais uma tragédia familiar, que sempre nos parece impossível, distante, coisa que só acontece nas classes baixas. Quando falamos da questão cultural, da importância de informar e formar nossos jovens, é por acreditar que esse é o caminho para, no mínimo incutir o respeito entre os sexos, nas futuras gerações.
Leiam abaixo a matéria publicada no Estado de Minas online pra entender a cronologia do drama vivido per essa família e as dificuldades de uma reação da justiça:

                        Por: Pedro Ferreira, Alfredo Durães, Guilherme Paranaiba


 Ela, servidora pública federal, 35 anos, bonita, bem-sucedida, mãe apaixonada de dois filhos. Ele, pai das crianças, 49 anos, empresário do ramo de locação de veículos, conhecido pelo gosto refinado e pela vaidade. Moravam em residencial de alto padrão em Nova Lima, Sul da Grande BH. Por trás do assassinato da procuradora da Advocacia Geral da União Ana Alice Moreira de Melo, encontrada com várias perfurações pelo corpo ontem no imóvel do casal, no Condomínio Villa Alpina, está um enredo de traição, ameaças e denúncias oculto pela aparência de luxo e conforto transmitida pelo padrão de vida da família.

A história é o que transparece do inquérito sobre os pedidos de proteção feitos contra o marido da vítima, o empresário Djalma Brugnara Veloso, que teve a prisão preventiva decretada como principal suspeito do crime, ocorrido por volta das 4h30 de ontem. Os documentos que tramitam no Fórum Augusto de Lima, em Nova Lima, mostram que o desfecho trágico começou a se desenhar há três anos e que as medidas determinadas pela Justiça foram inúteis para proteger a vítima.
O Auto 188.12.000.552-8J detalha os dois pleitos dos advogados da procuradora, inclusive as ameaças de morte feitas por Djalma e os fatos que levaram o casal ao processo de separação. De acordo com a petição feita pelo advogado Murilo Andrade, Ana Alice alegava ter descoberto, há três anos, que o marido tinha uma amante. Desde então o casamento ficou abalado. Ela tentou manter a união pensando nos filhos, mas, no começo do ano passado, Djalma viajou sem informar destino e passou um mês fora de casa, de acordo com os documentos.

O fato levou o casal a uma rotina de desentendimentos, que culminou com uma briga, no dia 22, no clube que frequentavam. Djalma viu a mulher passando uma mensagem pelo telefone celular e a ameaçou, querendo saber para quem era o texto. Sempre segundo os autos, a briga prosseguiu na casa dos dois, à noite, momento em que o empresário, transtornado, teria quebrado o telefone da mulher e o notebook que ela usava para trabalhar. Também teria se apoderado de um modem e de um pen drive com documentação pessoal de Ana Alice.

Na representação, as ameaças que teriam sido proferidas por Djalma estão entre aspas: “Vou te dar um tiro na cabeça”; “você é uma vagabunda”; “vou te matar”. Adiante, o advogado da vítima descreve que em determinado momento, em casa, o empresário esquentou água no micro-ondas e jogou na direção de Ana Alice, atingindo-a parcialmente e a seu filho menor, embora sem gravidade. Ele também teria ameaçado colocar faixas ofensivas na rua onde a mulher trabalhava.

Diante dos argumentos, o juiz titular da Vara Criminal e da Infância e Juventude de Nova Lima, Juarez Morais de Azevedo, que tem 23 anos de magistratura, proferiu, já no dia 25, a seguinte sentença: “Concedo-lhe as medidas protetivas de aproximação da ofendida e de seus familiares pelo agressor, que deverá manter o limite mínimo de 30 metros de distância deles, assim como fica proibido de entrar em contato com os mesmos por qualquer meio de comunicação, frequentar determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da ofendida. Quanto às demais medidas requeridas, considerando se tratarem de providências mais drásticas, designo o dia 15/02 de 2012, às 13h, para oitiva da ofendida e de seu ofensor. Intimem-se. Notifiquem-se”.

Anteontem, um oficial de Justiça conseguiu intimar Djalma, fato que, de acordo com o advogado Murilo de Andrade, que defendia Ana Alice, pode ter levado o empresário a cometer o crime. No mesmo dia, mas às 18h30, o juiz Juarez Morais expedia outra sentença, ampliando as medidas protetivas. Nessa última decisão, o magistrado determinava o afastamento imediato do suspeito da casa da família e que ele mantivesse pelo menos 500 metros de distância da mulher. Não houve tempo de intimar o acusado, que seria notificado na manhã de ontem. Às 4h30, Ana Alice estava morta.

BATE-BOCA

Segundo relato recebido pela polícia, Djalma discutiu com a mulher momentos antes do crime. Não era algo novo na rotina do casal, como indica o processo que tramitava no Fórum de Nova Lima. Amigos da procuradora garantem que ela costumava reclamar da agressividade do companheiro e das crises de ciúme, que não poupavam nem a relação dela com os filhos, os meninos de 3 e7 anos.

Militares que atenderam a ocorrência informaram que o empresário entrou no condomínio por volta das 20h30. Não há informações se Djalma foi direto para a casa da família ou se passou antes pela casa de sua mãe, vizinha à do casal. Na madrugada de ontem, apavorada com a discussão entre os dois, a babá das crianças se trancou no banheiro com os meninos, temendo o pior. Passados momentos de muitos gritos e confusão, a funcionária deixou o cômodo e encontrou a advogada ensanguentada no quarto, com várias perfurações, de acordo com a polícia. Segundo a PM, a saída do empresário se deu momentos depois, por volta das 4h30. No fim a noite de quinta-feira foi encontrado morto em um motel.

A crise

. O casal se conheceu há 19 anos, quando ela tinha 16, e estava casado havia 13.

. Ana Alice relatou ter descoberto, há três anos, que Djalma a traía

. Há um ano, segundo a mulher, o empresário saiu de casa dizendo que ia viajar. Passou um mês fora, sem informar o paradeiro

.  Em 22 de janeiro, Djalma teve uma crise de ciúmes e agrediu a mulher verbalmente, quebrando objetos pessoais dela. Ele também teria esquentado água no micro-ondas e atirado contra Ana Alice, segundo relatou a vítima

.  Em 24 de janeiro, acreditando que a situação atingira um limite insuportável, Ana Alice prestou queixa contra o marido na Delegacia de Nova Lima

.  No dia seguinte, o juiz Juarez Morais de Azevedo decretou medidas protetivas em favor da advogada

.  Na quarta-feira, Djalma recebeu de um oficial de Justiça as determinações do juiz

. No mesmo dia, o juiz ampliava as medidas protetivas, a pedido do advogado da vítima, que as considerou insuficientes. A notificação seria entregue na manhã de ontem

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Aqui estamos nós... Um encontro diferente.





Um dia, ou numa noite aconteceu. Aniella conta o que lhe pareceu especial, porém, conhecendo a fauna que circula a sua volta, manteve-se alerta. Como ela mesma diz: “Logo aprendi que puta que se apaixona se dá mal”.

Foto da internet, sem crédito
  
“Era uma noite como outra qualquer, nem fraca, nem ótima. Já tinha saído com um cliente, fomos ao motel ali perto. Mais uma vez aquela coisa apressada, sem maiores emoções. Acabara de descer do carro e estava às voltas com as tiras da sandália, daquelas que amarram na perna. A desgraçada não ficava no lugar, por mais que apertasse, logo afrouxava e escorria até o chão.
A rua estava com pouco movimento, as meninas de sempre circulavam em seus territórios. De repente, como se surgido do nada, estava lá um rapaz. Alto, moreno, cabelos muito curtos e mesmo nas sombras da noite deu pra ver que era bonito, forte e tímido. Assim que o vi e senti seu interesse, apontei pra sandália e falei assim me desculpando pela posição estranha, o vestido arregaçado na coxa. Ele não disse nada, ficou me olhando. Então parei e o encarei. Foi aí que vi aquele olhar, como dizia a Juçara: o olhar de tu existes e eu não sabia. Na hora fiquei toda arrepiada, como se um calor me aconchegasse de um jeito muito especial. Esperei sem saber o que fazer. Olhei em volta e não vi carro nenhum. Era raro aparecer alguém ali, naquela rua, a pé.
Por um tempo que pareceu muito longo, ficamos nos olhando, fixo, um nos olhos do outro, uma espécie de imã nos atraia. Ele então fez um gesto com a cabeça, tipo vamos lá, virou-se e saiu andando. Fiquei em dúvida, deu vontade de me agarrar a ele e dizer, me leva. Mas lembrei das instruções do Washington: deem preferência aos clientes de carro, normalmente tem mais dinheiro e cuidado com os malucos que aparecem aos montes. Meu coração disparou, mas achei melhor esperar. Ele então parou, voltou e fez uma espécie de reverência, sem dizer nada, mas deixando claro o convite. Fui atrás, arrastando a tira da sandália. Uma das meninas viu e fez que não com a cabeça, ignorei.
Andamos pela calçada, menos de meio quarteirão, e ele parou diante de um prédio pequeno, mas arrumadinho. Abriu uma porta de ferro e vidro, pesada e me deu passagem. Tinha sido alertada dos perigos de ir a apartamentos que não fossem de hotéis e motéis, mas ele me atraiu com seus modos gentis e aquele jeito de me olhar.
Subimos ao segundo andar pelas escadas e entramos em um apartamento simples. Como ele não disse nada em momento algum, perguntei se ele era mudo. Ele riu e disse não. Desculpou-se com um gesto e apontou o banheiro.
Assim que entrei e fechei a porta, fui tomada por uma onda de entusiasmo. No mínimo era um cara diferente. Então me segurei e disse a mim mesma: Cuidado Ane, não se iluda, a felicidade é pra poucos...”

Continua...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Aqui Estamos Nós...

Retomamos, a partir de hoje, as atualizações do Aqui Estamos Nós, a história da luta de Aniella Shimura, pela dignidade de ser mulher.
Neste capítulo, Ane, como é conhecida por seus clientes, fala de um momento que se repete na vida de quem trabalha neste mercado que vai muito além do corpo. Onde se vende prazer, mas na maioria das vezes recebe-se, em troca, maus tratos, indiferença e muita ilusão.



“Ao longo dessa vida, muitas vezes encontramos essoas que trazem grandes dúvidas. São os diferentes, aqueles que não querem apenas sexo, mas buscam interagir, conversar. Se mostram compreensivos, até carinhosos. As mais experientes costumam chamá-los de perigosos, por nos tirarem do objetivo, normalmente com falsas promessas, arroubos românticos cheios de carência. Além do mais, acabam por ficar mais tempo do que dispomos e depois somos nós que nos vemos com os nossos agentes, mais conhecidos como cafetões”.

Bonita, inteligente e sensual do jeito que ela é, vive passando por este tipo de situação. Peço que me conte uma ou duas passagens. Ela primeiro sorri com as lembranças que retornam. Depois me diz o seguinte:

“Eu nunca acredito em promessas de clientes. Muitos fizeram apelos prometendo mundos e fundos. Homens casados que dizem que vão deixar suas esposas e formar uma nova família, jovens arrojados querem fugir para bem longe e começar vida nova, e por aí vai. Já vi muitas garotas sofrerem desilusões irreversíveis, nunca mais foram as mesmas, como se uma doença as consumisse, a pior delas, a da frustração. Sempre preferi ser realista: estou nesta vida por não ter outra chance, mas a chance vai aparecer e quero estar inteira pra dar a virada”.

Até que um dia, aconteceu. Mas como tudo na vida dura dessas mulheres, nada é fácil...
Obs: Imagem da Internet, sem crédito.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Aqui estamos nós...

                                                           Foto da internet, sem crédito.


Aniella conta como é a vida na pensão, onde se juntam várias moças, todas cheias de sonhos e esperança, como ela diz: “Não tem diferença nenhuma dessas pensões pra estudantes, imagino. São os mesmos sonhos e desejos, ser alguém na vida. O que muda é que enquanto elas, as estudantes, recebem conhecimento e educação, nós, as prostitutas, damos o pouco que temos, principalmente a saúde”.
Diante da pergunta de como é o dia a dia na pensão, Ane muda de expressão e deixa transparecer a menina, como se recuperasse aqueles anos roubados.
“Todas consideram estar em um lugar transitório, em um momento de passagem para a sonhada liberdade e uma vida justa e tranquila. Vivemos das boas lembranças que conseguimos preservar apesar de tudo. Nossas vidas cabem dentro de caixas de sapato, velhas bolsas, caixinhas de música, um pé de meia. São as reminiscências do passado ainda tão próximo e vivo, intimidades escondidas, que nas horas de desespero visitamos, para lembrar que já existiu uma outra vida. E então confirmar que é possível reconquistar”.
Quem acrescenta é Bárbara, uma novata de quem é impossível saber a verdadeira idade. Um corpo jovem que se desfaz rapidamente, transbordando mágoa e ressentimento:
“O pior, amigo, é acordar de manhã e esperar a hora em que os animais aparecem doidos pra mostrar que são mais fortes e que a gente não passa de lixo, onde podem cuspir e botar toda a sujeira deles”.
Gabriela, a mais velha de todas, “cinquenta e dois anos, com muito orgulho e tesão”, se apresenta, ri com vontade de Bárbara. Fecha essa conversa com uma fala surpreendente:
“Não sei do que elas se queixam, todas tem uma vida boa e estão aqui porque querem. A porta está sempre aberta. Mas sabe por que não vão? Eu sei, porque não fui. Porque não vão achar nada lá fora, a família chutou, botou pra fora. Os amigos fingem que não conhecem. Os vizinhos riem e viram a cara. Aqui, pelo menos, de vez em quando alguém nos dá o que nunca tivemos; carinho e atenção. Mesmo quando dói”.


domingo, 27 de novembro de 2011

Socorro Internacional



A Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180 amplia seus serviços para assistir brasileiras em situação de risco na Espanha, em Portugal e na Itália. "É a primeira porta que se abre para as cidadãs fora do país, nesses três países", afirma Jadelza de Andrade Araújo, coordenadora do Ligue 180, que explica que, assim como no Brasil, a ligação no exterior é gratuita e confidencial. Igualmente, o serviço atenderá durante as 24 horas, todos os dias da semana, inclusive nos feriados.


"Esse é um programa para atender mulheres brasileiras fora do país, que são vitimizadas de formas diferentes. Mas o que as unifica é a necessidade de orientação e amparo para resolver seus problemas", disse a ministra da Secretaria de Política para Mulheres, Iriny Lopes, no lançamento do serviço Ligue 180 Internacional, que tem como principal alvo as mulheres que sofrem maus-tratos de parceiros, são obrigadas a se prostituir, trabalham em condições precárias ou são "vítimas de organizações criminosas e foram sequestradas".


"Há uma grande incidência de casos desse tipo envolvendo brasileira nesses três países. O projeto é piloto. Vamos consolidar e podemos expandir para outros países", disse a ministra, citando os Estados Unidos como possível local para expansão.


O Ligue 180 Internacional é uma parceria entre os Ministérios das Relações Exteriores e da Justiça e a Secretaria de Políticas para as Mulheres. Inicialmente, os Consulados do Porto e de Lisboa, em Portugal, Madri e Barcelona, na Espanha, e Milão e Roma, na Itália, estarão atuando no serviço.


“A ideia é estar disponível 24 horas. Antes havia o apoio prestado pelos serviços consulares, muitas vezes o pedido de ajuda não ocorria porque algumas mulheres ficavam constrangidas de relatar o que estavam passando. Agora haverá um atendimento só para elas”, afirma a chefe do Departamento Consular e de Brasileiros no Exterior, Maria Luiza Ribeiro Lopes da Silva. A diplomata explica que a orientação é para que as atendentes recebam as queixas e providenciem os encaminhamentos desejados pelas mulheres que fazem as reclamações. “O telefonema pode ser anônimo. Se a mulher não quiser fornecer detalhes por temor ou receio, a reclamação será feita da mesma forma”, esclarece Maria Luiza.
Como funcionará o Ligue 180 Internacional
As mulheres em situação de violência na Espanha devem ligar para 900 990 055, fazer a opção 3 e, em seguida, informar à atendente (em português) o número 61-3799.0180.


Em Portugal, devem ligar para 800 800 550, também fazer a opção 3 e informar o número 61-3799.0180.
E, na Itália, as brasileiras podem ligar para o 800 172 211, fazer a opção 3 e, depois, informar o número 61-3799.018. O serviço da Central conta com a parceria do Ministério da Justiça e suporte de embaixadas e consulados.


A escolha dos países, segundo a coordenadora da Central, está relacionado ao grande número de mulheres nas comunidades brasileiras. Além da violência doméstica, são comuns casos de sequestro e tráfico de mulheres nestes países.
(O Estado de S. Paulo/O Globo/Terra/Agência Brasil/SPM)

domingo, 23 de outubro de 2011

A história de Ane 3 - Aqui estamos nós...

                                                   Foto da internet - sem crédito

     

Após ter desafiado minha imaginação, Ane pediu um tempo e retirou-se por alguns minutos. Confesso que estava curioso pela sequência da história, uma vez que tinha diante de mim, uma mulher, jovem, linda, determinada e com jeito de quem deu uma virada na própria vida.
    Ela voltou e trazia uma velha bolsa que colocou sobre a mesa, sem qualquer alusão sobre o que guardava ali. Sorriu uma tímida desculpa pela interrupção e retomou o fio da meada:

     — Na mesma noite fui arrancada da casa de minha mãe e levada de volta pra
fazenda. Os dois próximos dias mostraram o quanto os homens podem se aproximar das bestas, o quanto podem ser cruéis.

    Claramente a lembrança estampava em seu rosto um tênue, mas decisivo horror, daqueles que permanecem grudados à alma enquanto se respira.
    Decidi não expor aqui o que ouvi, basta ler a o próximo parágrafo para se ter ideia da dimensão da violência:
    
    — Depois disso fiquei por mais de um mês na Santa Casa, cuidada pelo médico, mas isolada do mundo, longe da minha mãe. Por sorte, o médico, um velho que vivia bêbado, sabe-se lá porque, se dedicou ao meu caso vinte e quatro horas por dia. Por várias vezes impediu que eu fosse retirada da enfermaria e levada de volta à fazenda. Fiquei bem, graças a ele, sem marcas visíveis, embora nunca mais possa ter filhos. Mas quer saber? Fico aliviada de nunca botar filho nesse mundo.

    Perguntei quando conseguiu se livrar.

    — Cinco anos depois. Durante esse tempo fiz o trabalho pesado da casa,
incluindo aí as noites intermináveis com o patrão. Certo dia o desgraçado me mandou pra cidade com o capataz, disse que
confiava em mim e que a partir daquela data seria a secretária dele. A obrigação era depositar o dinheiro no banco e fazer algumas compras. Escondi o dinheiro na calcinha e, já na cidade, disse ao capataz que havia esquecido na fazenda. Usei todo o charme pra convencer o cara a ir buscar antes que o patrão acabasse comigo. O idiota foi acreditando em algumas promessas que fiz. Peguei uma carona com um vendedor de máquinas agrícolas e sequer olhei para trás.

    Seria a redenção se houvesse um mínimo de justiça entre os homens. Se na selva
civilizada não existisse a cultura do macho que caça a fêmea para seu prazer e lucro.

    A história de Ane no Rio de Janeiro, onde a encontrei, é outro capítulo. Mais adiante falaremos, ela e eu, sobre as novas batalhas.