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quinta-feira, 18 de abril de 2013


Agência Senado) Os municípios deverão manter pelo menos um hospital de referência para atendimento emergencial, integral e multidisciplinar a vítimas de violência sexual, oferecendo, num mesmo local, tratamento médico e psicológico, atendimento profilático, facilitação do registro policial da ocorrência e coleta de material para identificação do agressor.
Essa assistência em rede está prevista em projeto (PLC 3/2013) aprovado nesta quarta-feira (10) pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), que segue agora para decisão terminativa na Comissão de Assuntos Sociais (CAS).
Presente à reunião da CDH, a autora da proposta, deputada Iara Bernardi (PT-SP), explicou que o projeto torna lei protocolo já existente no Sistema Único de Saúde (SUS), mas que não vem sendo cumprido.
– Tem que ter um hospital de referência, com regras para o atendimento policial, atendimento psicológico à vítima de violência sexual, coleta de material para possível identificação do agressor e medicamento que ela precisa receber, como a pílula do dia seguinte, para não engravidar. É um aparato que tem que funcionar em rede – disse a deputada, ao lembrar que as medidas devem ser tomadas até 72 horas após a agressão.
A proposta define violência sexual como “qualquer forma de atividade sexual não consentida” e detalha os serviços obrigatórios que devem estar disponíveis nos hospitais integrantes do SUS.
Estabelece, por exemplo, a realização de diagnóstico e tratamento das lesões, apoio psicológico, profilaxia da gravidez e das doenças sexualmente transmissíveis e informações sobre serviços sanitários disponíveis. Determina ainda a colaboração nos procedimentos policiais e investigativos, como a preservação de materiais coletados e exame de DNA para identificação do agressor.
Em voto favorável, a relatora na CDH e presidente da comissão, Ana Rita (PT-ES), elogiou o caráter amplo da proposta, que não limita o apoio à mulher vítima de violência.
– Sabemos que não são raros os casos de violência sexual contra crianças, jovens e idosos, do sexo masculino, bem como contra transexuais, travestis e homossexuais de qualquer sexo. O projeto trata de não fazer distinção de gênero entre as vítimas. Só podemos louvar esse posicionamento – frisou.
Para Ana Rita, a visão ampla de atendimento prevista na proposta facilitará a recuperação física e psicológica da vítima, contribuindo para o restabelecimento de sua autoestima e autoconfiança.
Também manifestaram apoio à proposta os senadores Paulo Paim (PT-RS), João Capiberibe (PSB-AP), Eduardo Suplicy (PT-SP), Paulo Davim (PV-RN). Na opinião de Paulo Davim, que é médico, a rede de acolhimento prevista no projeto ajudará a reduzir o sofrimento e constrangimento das vítimas de violência sexual e contribuirá para melhorar o atendimento hospitalar a esses casos.
– Os serviços em geral não têm estrutura para atender às mulheres vítimas de violência e os servidores não estão preparados para a gravidade do problema – observou, ao elogiar a iniciativa.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

RESISTÊNCIA Livro 2


Da trilogia

AQUI ESTAMOS NÓS...






1
O interfone tocou na portaria do edifício Azul Oceânico, um dos prédios que se erguem no condomínio mais luxuoso da avenida em frente à praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Da cobertura, brinca-se, é possível ver a costa africana em frente.
Seu Aníbal acabara de assumir o plantão da manhã. Ajudava a empregada do apartamento 901 a colocar as compras no elevador de serviço, quando ouviu a campainha estridente do interfone.
Desculpou-se e arrastou sessenta e oito anos de vida, e trinta e quatro de trabalho como porteiro, vinte e um dos quais só naquele condomínio, aonde chegou antes mesmo de os prédios serem habitados. Gostava de se gabar, cheio de orgulho, que durante todos esses anos nunca tivera nenhuma ocorrência em seus serviços. Para não dizer nunca, uma palavra tão radical, uma vez, ainda no início da profissão, alguém arranhara o carro do filho do Síndico, em noite que o serviço era seu. Para não ficar mal na história, investigou e descobriu que um entregador de supermercado foi o autor do sinistro. O fato acabou por contribuir com sua ascensão a porteiro chefe, com direito a uma quitinete no prédio I.
Primeiro sentou-se na cadeira, de onde dominava a entrada de pedestres e veículos. Respirou fundo em busca do oxigênio que já não chegava com facilidade aos pulmões comprometidos por anos de nicotina. Passou os olhos pelo monitor de vídeo, com imagens das áreas internas do condomínio. Só então pegou o interfone, que continuava a estrilar em desespero. Atendeu.
A voz pesada e rouca foi imediatamente identificada pelo morador.
— Portaria! Aníbal falando.
Na outra ponta a voz tinha urgência; carregada de espanto:
— Uma mulher caiu da janela, pelo amor de Deus! Bem ali no jardim...
O furgão da RTC, Rede de Televisão Carioca, estacionou em frente ao prédio, minutos depois da chegada da polícia, e pouco antes da equipe dos bombeiros. A primeira a saltar foi a produtora Sonia Gomes.
Pequena e ágil, logo esquadrinhou o local e passou as ordens ao cinegrafista Jacques Viana, que prontamente retirava o equipamento do porta-malas, com a ajuda do auxiliar José Luiz.
Dentro do furgão Antonio Más, terminava a troca de e-mails com uma de suas fontes, em seu Iphone, ao mesmo tempo em que teclava furiosamente no MacBook para fechar a redação do texto que o guiaria em outro trabalho, atravessado pelo acontecimento no bairro nobre, no condomínio classe A. Em seguida desceu para trocar ideias com a produtora Sonia Gomes, que a esta altura já apurara os primeiros dados do caso e passara a ele, pelos garranchos escritos na folha do seu manjado bloco de notas, como sempre, sem maiores conversas. Folha arrancada, entregue, e saída rápida para estruturar a transmissão da matéria, ao vivo, em edição especial do jornalismo da emissora, o Plantão da Cidade.
Antonio Más, habituado a decifrar os rabiscos de Sonia Gomes, captou a essência do caso e começou a formatar em sua cabeça o texto de abertura.
Corriam contra o relógio para serem o primeiro órgão noticioso a divulgar os acontecimentos. Era o diferencial da equipe do Plantão, sempre rodando pela cidade, contavam com uma extensa rede de colaboradores amadores, atentos aos fatos, comunicando-se entre si, via celular, twitter e rádio. Na maioria das vezes chegavam rápido aos locais informados. Se, por acaso a distância, ou o trânsito pesado, impedisse a breve locomoção da Van, entrava em cena um dos quatro “Motofocas”, jovens jornalistas contratados com suas motocicletas, a fim de cumprirem este papel. Deslocavam-se com eficiência, apuravam os fatos, passavam diretamente para o rádio do furgão. De posse dos dados Antonio Más fazia entradas a caminho do local, muitas vezes, havendo condições técnicas, dialogava ao vivo com o Motofoca.
O Plantão da Cidade era recente, pouco mais de um ano no ar, mas já colecionava prêmios, matérias em revistas e jornais, além de comentários favoráveis. A chamada para as intervenções, dizia: “Quer saber o que vai pela cidade?, se liga no Plantão”.
Com a câmera enquadrando sua figura em plano americano, ou seja, do joelho para cima, tendo como fundo o conjunto de prédios do condomínio, Antonio Más fez sua primeira entrada, depois de chamado pelo âncora diretamente dos estúdios.
— Morador do Condomínio de luxo, Azul Oceânico, seu Eugênio Figueira de Mello, aposentado de setenta e sete anos, caminhava em sua varanda, quando viu passar voando, o que lhe pareceu ser uma mulher. Confirmou ao chegar ao parapeito a tempo de ver a terrível aterrissagem. Como não é normal, e nunca será, alguém sair voando de casa, chamou o porteiro. Ainda não podemos dizer muita coisa, apenas que a vítima era moradora do décimo segundo andar, informou o porteiro. Ainda não se sabe se caiu ou
foi jogada. O fato aconteceu há não mais do que vinte minutos. — Valorizou. — Nesse momento a equipe de resgate dos bombeiros já chegou ao local. A polícia técnica está a caminho e nós vamos entrar na cena pra apurar todos os dados. Enquanto esperam por novas e atualizadas notícias, conheçam um pouco do cenário do acontecimento.
De maneira ágil, a equipe comandada pelo editor Vander Régis, colocou no ar imagens tiradas do Google, com informações sobre o bairro, o condomínio e o prédio em questão.
Em um grande apartamento adaptado para servir de escritório à Agência Rian, no bairro do Flamengo na zona sul do Rio de Janeiro, Joele Rocha, jornalista, acabara de ver o Plantão da Cidade e de receber um alerta do twitter em seu celular.
— Esse cara, Antonio Más, é impressionante. Nem bem entrou ao vivo na TV, já twitou sobre a matéria. — Comentou com Elfi Danovic, sua sócia na Agência e vizinha de mesa. — Acho que temos alguma coisa aqui.
— O que foi? — Quis saber Elfi, envolvida com atualizações do site.
— Olha só. Sabe aquele condomínio Azul Oceânico na Barra.
— O endereço dos famosos?
— Mais de políticos do que de artistas. Famosos tanto quanto. Parece que uma mulher caiu do décimo segundo andar, ou foi jogada.
— Viu no Plantão? Já se sabe quem é?
— Ainda não. Acabou de rolar.
— Começaram cedo hoje. — Disse Elfi Danovic enquanto digitava com agilidade e precisão impressionantes. — Rapidinho entro aqui no site da Prefeitura, quero ver os IPTUs e seus sobrenomes.
— Vou ficar ligada no Plantão da Cidade, me diz o que descobrir.
— Claro gata. Pelo endereço gente anônima é que não é. Falta pouco. Os caras instalaram um novo código de segurança infalível, segundo disseram, lembra? Vamos ver quanto tempo resiste. Ops, já entrei, nem dois minutos de resistência. Ah, mas olha só, tem um spy metido a fofoqueiro aqui, louco pra saber quem é o invasor. Aqui não bonitinho. Vou te deixar maluco.
— Ei — cobrou Joele Rocha em tom de brincadeira —, já tem mais de cinco minutos, perdeu essa.
— Que nada, já tenho tudo aqui, só vou mandar o amiguinho aqui caçar coelho na cartola de outro. Pronto. Como previsto, décimo segundo andar, dois apartamentos, 1201, senhor Juarez Fernandes de Castro. Peraí, um minuto, quem é o boneco? Taí o que você queria: Deputado Federal por São Paulo, segundo mandato.
— Aqui ainda não diz de qual apartamento foi.
— O 1202 é de uma senhoura que responde pelo nome de Betina Kipfer. Nome alemão ou suíço.
— Quem é a individua? Conhecida?
— Nada demais, pelo menos nenhuma fofoca, nem aparições em salões nobres da cidade. Nada registrado.
— Que curioso. Proprietária de um apartamento desses?
— Mais estranho ainda você vai achar agora. Sabe qual é a idade de dona Betina?
— Diga.
— Vinte e nove anos.
— Uau! Tem foto aí?
— Nada. Misteriosa a moça, viu. Só encontrei o nome por causa do registro de imóveis. Diz também que a cidade natal dela é Sombrio, cara que lugar pra nascer, em Santa Catarina. Divorciada, profissão professora.
— Êpa, divorciada é? É aí que se explica muita coisa. Só assim dá pra imaginar uma professora morando em um dos apartamentos mais caros da cidade. Vai entrar de novo o Plantão. — Joele ajeitou os fones nos ouvidos.
— Apura aí que vou continuar o que estava fazendo. Tenho dois dias de atraso. — Disse Elfi Danovic. Minimizou a pesquisa e abriu a tela com os complicados gráficos em que trabalhava.
— CQD — como queríamos demonstrar, expressão matemática que Joele Rocha sempre usava —, quem caiu ou foi jogada do décimo segundo andar, foi a professora primária, nascida em Sombrio, diz aqui Antonio Más, o nosso repórter predileto. Esse cara consegue fazer piadinha de cada coisa...
— Tipo o quê? — Arguiu Elfi, sem tirar os olhos da tela de seu MAC.
— Perguntou o que e a quem teria vindo ensinar uma professora da distante cidade de Sombrio, em um apartamento de alto luxo encravado no reduto de classe média alta do Rio de Janeiro. E arremata: Que tipo de matéria ela domina?
— Você acha esse cara legal? — Perguntou Elfi Danovic afastando um pouco o rosto da tela. — Acho ele meio esquisito. Machista, sei lá.
— Às vezes também acho. Mas não dá pra negar que ele faz um jornalismo diferente, sem a caretice que assola a maioria dos canais de TV. Tira o tom dramático, apelativo, sem tirar a seriedade.
— Não dá pra brincar com um suicídio, ou assassinato, e nesse caso ele está é prejulgando a moça. — Replicou Elfi.
— Espera aí Elfi. Sem essa de politicamente correto. Pensa bem, uma pobre e inocente garota ela não é. Vamos ver o que será apurado. E o Antonio Más diz coisas que as pessoas pensam, presta atenção. — Defendeu Joele Rocha.
— Sei não, essa aí é mais uma vítima, isso sim. Sua corporativista.
— Então fica aí que vou à luta. Vamos ver o que isso aí vai render...
— Vem cá. — Elfi girou sua cadeira para encarar a sócia. — Hoje é só citação, informação, né?
— Claro. Vou apurar. Pela hora — ela olhou no canto da tela de seu notebook — quase onze horas, isso aí vai render o dia todo. Ligo mais tarde.
Joele desligou o computador portátil e o enfiou na mochila, sempre abarrotada. Foi até a mesa de Elfi e lhe deu um beijo no alto da cabeça.
— Depois dá uma olhada na moçada da outra sala. Confesso que estou morrendo de curiosidade pra ver o novo layout. Qualquer coisa me liga. Beijo gata.
Aniella Shimura se despediu de sua advogada, Ruth Monteiro e entrou no elevador. Foi cumprimentada pelo ascensorista e respondeu distraída. Sua cabeça estava cheia. A reunião fora convocada pela advogada com o objetivo de acertarem os últimos detalhes de um empreendimento que Aniella pretendia fazer à distância, em uma cidadezinha do interior do Estado de Mato Grosso. Não por acaso sua cidade natal, de onde saíra há quase cinco anos e nunca mais colocara seus pés, embora fizesse visitas sentimentais ao passado recente, principalmente nas madrugadas insones e solitárias.
Ruth Monteiro argumentara que qualquer negócio só pode dar certo se administrado de perto, por quem investe. E antes de qualquer atitude, já que não tinha ninguém de confiança por lá, ela deveria ir ao local e estudar melhor os planos, ver o que queria, para aí sim implementar o interesse. Ouviu as ponderações da cliente, mesmo assim sustentava que negócios e sentimentos são por princípio, antagônicos.
Entendia as razões como amiga, mas não podia, como advogada e conselheira, deixar de levantar a questão. No entanto, dado o conselho, cabia-lhe acatar as vontades da cliente, que lhe pagava muito bem.
Intimamente Aniella Shimura reconhecia a preocupação da advogada. Achava mesmo que como negócio, o investimento era péssimo, sem futuro, pelo menos na teoria. Porém não estava preocupada com lucros e resultados positivos. Não era isso em absoluto. O que adiantava ter o dinheiro, todo aquele dinheiro se não pudesse fazer um reparo em algo que há tanto tempo corroía seu espírito, tirava-lhe a alegria mesmo nos melhores momentos. Por vezes se pegava pensando se não estava buscando vingança, ou uma maneira de mostrar que dera a volta por cima. Transformara-se e queria transformar pessoas, vidas, o lugar. Tudo bem seria um péssimo investimento, mas teria o doce sabor da vingança, e quem, em sã consciência, deixaria de fazer o mesmo, com os recursos que conquistara? Ia fazer e pronto. Ganharia o mais importante, o prazer de realizar um sonho.
Desceu ao estacionamento subterrâneo, sob a Praça Paris. Pegou o carro, pagou, não sem reclamar do preço, um absurdo. Ao sair para o trânsito, tranquilo àquela hora, no aterro do Flamengo, seu celular tocou. Acionou o viva voz e atendeu. Era Joele Rocha.
— Oi Joele, tudo bem?
— Tudo Ane, e você?
— Às voltas com reuniões, mas tudo bem. Diga aí.
— Acho que temos um novo caso. Lá na Barra da Tijuca. Estou indo pra lá.
— Está dirigindo?
— Estou.
— Já falei pra você instalar um viva voz....
— É rapidinho. Uma moça, jovem, vinte nove anos, caiu, se jogou, ou foi jogada do décimo segundo andar, naquele condomínio de luxo, Azul Oceânico. Liga o rádio, tem repercussão do caso. Depois falamos.
— Certo. Beijo.
Desligaram os telefones e Aniella ligou o rádio. Esperou um pouco e logo uma repórter foi chamada a dizer sobre o andamento do mistério do Azul Oceânico.
Ouviu tudo com a maior atenção. Colocaram no ar breves depoimentos do porteiro chefe do prédio, do primeiro policial que chegou ao local e do morador, um
senhor aposentado que passou pelo dissabor de presenciar a queda. Anotou mentalmente o nome da moça.
Passaria em casa rapidamente, precisava se trocar apanhar alguns objetos, e seguiria para o local.
Todos os seus sentidos entraram em alerta. O que quer que tenha provocado a queda da moça chamada Betina Kipfer, seria ruim. Ela iria descobrir.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Apresentação do autor



Se você está chegando agora, seja bem vindo e saiba um pouco mais sobre o autor e seu trabalho:

Marco Simas é mineiro radicado há muitos anos no Rio de Janeiro, sempre ligado ao cinema. Como roteirista e diretor realizou vários filmes de curta-metragem, entre eles os premiados:
“Solo do Coração”;  Com o andar de Robert Taylor”  
Foi Diretor Assistente em filmes como: Jorge um brasileiro e Villa-Lobos, uma vida de paixão. Trabalhou em televisão como roteirista e diretor de programas e atende produtoras de audiovisual. É ainda, professor de roteiro e direção cinematográfica em cursos universitários. Realiza oficinas de roteiro e de escrita criativa.

“Considero-me um contador de histórias como os aedos medievais, que espalhavam as aventuras de heróis distantes e populares. Escrevo para ler o que gosto e, de certa forma, realizo os filmes no papel e na imaginação do leitor”.
  
ÚLTIMO TREM
Romance
 A história se passa nos anos 1990, período negro da Era Collor. Além da crise econômica, frustração também no mercado cinematográfico nacional com o fechamento da Embrafilme. Miguel, criado no Cine Vera Cruz, só conhece a vida pelos clássicos que projetou por mais de cinquenta anos, e sua relação com a realidade se confunde com a dos filmes. Mas a crise fecha o Vera Cruz e Miguel é obrigado a enfrentar o mundo fora das telas. Conhece a bela Angelina encenando Carlitos numa praça. Ainda envolto em suas memórias, fica encantado. Após um trágico incidente, o velho projecionista e a jovem atriz, aliados fraternos, enfrentam as adversidades da vida real para levar ao interior do país a magia do cinema. Um sonho, um projetor antigo e uma sacola com latas de cenas de filmes, mudam o rumo e o sentido de muitas vidas.

Resenha (trecho):
Karol Albuquerque
Literatura Pop
Poucos livros que li essa ano me emocionaram tanto quanto O Último Trem, de Marco Simas. Eu fico imaginando por que motivos o autor não está por aí escrevendo mais e ganhando rios de dinheiro porque ele é simplesmente um gênio da literatura nacional. Há muito tempo não lia um livro tupiniquim que mexesse tanto comigo e me deixasse tão contente e esperançosa: entre tantas tentativas, aqui no Brasil, de se escrever gêneros populares como fantasia e chick-lits, foi exatamente um livro despretensioso, com um protagonista idoso e falando de cinema que conquistou meu coração. Chega a ser irônico.

 Depoimento autor:
 Escrever o Último Trem me deu tanto prazer quanto assistir aos filmes citados no texto. Seus personagens flutuam por entre a realidade, o lúdico, o desejo. Cada um deles é aquele que conhecemos, ouvimos falar a respeito e nunca nos será indiferente. Têm um pouco da gente em suas ações, sonhos e fantasias. Espero que o leitor encontre a mesma satisfação na viagem da leitura, quanto experimentei no dia a dia da escrita.

BÁRBARA NÃO QUER PERDÃO
Romance policial como Antônio Más

Quando o delegado Vagas chega em sua delegacia, encontra Bárbara, uma linda e enigmática loira a espera-lo, com um grande desafio: desvendar e provar dois assassinatos, que na verdade fazem parte de uma vingança arquitetada ao longo de muitos anos. É preciso que o delegado decifre o mistério o mais rápido possível, para não se tornar ele próprio, objeto da vingança.

Depoimento autor:
Bárbara nasceu meio que por acaso; um argumento para um filme ou seriado, que cresceu e ganhou vida própria. Gosto muito de romances policiais, da trama envolvente e de personagens enigmáticos. Com vontade de ler algo diferente do que se lê por aí, os detetives e delegados intelectuais, gênios da investigação dedutiva, criei um personagem marginal, o tipo que a sociedade desconsidera e jamais imagina fazendo justiça. A história, BÁRBARA NÃO QUER PERDÃO, é a apresentação da personagem. Muitas outras virão.

 Resenha (trecho):
Lorenzo Falcão
Da Editoria – Diário de Cuiabá

Pulp fiction. É a expressão que me vem à mente para melhor associar o tipo de literatura contido em “Bárbara não quer perdão”, de Antonio Más, editora Bagatela, lançado recentemente. Um romance policial escrito em linguagem tão simples e direta, que fica a impressão de que a gente está assistindo um filme de ação ou, numa hipótese mais ‘aparentada’, lendo uma história em quadrinhos. Graças a carga imagética imposta ao texto.

AQUI ESTAMOS NÓS
Romance
Em preparação

Trata-se de um romance “noir”, sem cair no velho esquema do detetive, ou do delegado. É formado por três livros que desenvolvem toda a história, que narra a saga de Aniella Shimura, em busca de sua identidade, e principalmente, da liberdade de ser mulher.
As personagens, totalmente ficcionais, foram criadas a partir de pesquisa e entrevistas com mulheres vítimas de violência, realizadas para dois filmes: O silêncio das inocentes e Maria da Penha.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Mapa da Violência 2012


Aqui estamos nós diante de novos e atualizados dados, assustadores! Visualizar estas pesquisas é importante pra sairmos do "ouvi dizer". É real e acontece em todos os níveis sociais, econômicos e culturais.
Não dá pra ficar indiferente. Leia a pesquisa, converse, dê ideias, meta a colher.


                                Foto da internet, sem crédito

Acaba de ser divulgado o Mapa da Violência 2012

Segundo o estudo do Instituto Sangari - coordenado pelo sociólogo Júlio Jacobo Waiselfiz e realizado em parceria com a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) -, de 1980 a 2010, foram assassinadas no país cerca de 91 mil mulheres, 43,5 mil só na última década. O número de mortes nesses 30 anos passou de 1.353 para 4.297, o que representa um aumento de 217,6% nos índices de assassinatos de mulheres.
De 1996 a 2010 as taxas de homicídios de mulheres permaneceram estabilizadas em torno de 4,5 assassinatos para cada grupo de 100 mil mulheres. Espírito Santo, com taxa de 9,4 homicídios em cada 100 mil mulheres, mais que duplica a média nacional e quase quadruplica a taxa do Piauí, o Estado que apresenta o menor índice do país.
Entre os homens, só 14,7% dos incidentes aconteceram na residência ou habitação. Já entre as mulheres, essa proporção eleva-se para 40%. 


Acesse em pdf o caderno complementar do Mapa da Violência 2012 - Homicídio de Mulheres no Brasil

terça-feira, 27 de março de 2012

Aqui estamos nós... Um encontro diferente. (continuação 2)


Um mês atrás falávamos aqui do encontro de Aniella, pela primeira vez, com um rapaz diferente dos outros. Queria entender o que fazia a diferença. Só para relembrarmos as últimas palavras dela:

- Então o que fez a diferença?
“Não foi na primeira vez, não. Quer dizer, naquela noite alguma coisa explodiu lá dentro. Não foi exatamente um orgasmo. Por incrível que pareça, foi melhor. Me senti segura, embora ele continuasse sem dizer nada. Me assustei quanto ele saiu de cima de mim, virou de lado e pegou uma arma, e ficou lá lustrando o ferro que já brilhava. Não sei, mas ao invés de medo, logo entendi que aquele rapaz, magro, alto e bonito, fazia parte do meu mundo”.
- E depois, o que aconteceu? Insisti.
- Foi estranho, porque ele sumiu. Passou um longo tempo até que reapareceu. Contra todas as regras da profissão, não consegui tirar da cabeça os momentos passados com ele. Sei lá, mas o jeito dele, mesmo parecendo assim, distante, em outro mundo, tinha um quê de carinho. Mais até do que isso, de cumplicidade. Pareceu, pelo menos aquela noite, que ele entendia a coisa mais difícil da profissão, a solidão que arrasa a gente depois que a noite acaba. Bateu em mim, que sofríamos do mesmo mal.
- E quando reapareceu como foi?
- Eu sabia que ele foi lá na rua me procurar. Seu rosto, quando nos encaramos, revelava mais do que o desejo urgente de sempre. Tinha alguma coisa no jeito dele de olhar que me ganhou.
- O que era essa coisa?
- Ah, nem sabia que existia, mas é o tipo da coisa que aprendemos rápido. Era ternura.
- Então a partir daí foi uma paixão?
- Na verdade, não. Esse tipo de sentimento é muito perigoso. Deu foi um medo danado. E esse encontro coincidiu com o pior período que passei. Nem sei como sobrevivi.

Aniella fala sobre o tal período na próxima semana.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Aqui Estamos Nós...

Retomamos, a partir de hoje, as atualizações do Aqui Estamos Nós, a história da luta de Aniella Shimura, pela dignidade de ser mulher.
Neste capítulo, Ane, como é conhecida por seus clientes, fala de um momento que se repete na vida de quem trabalha neste mercado que vai muito além do corpo. Onde se vende prazer, mas na maioria das vezes recebe-se, em troca, maus tratos, indiferença e muita ilusão.



“Ao longo dessa vida, muitas vezes encontramos essoas que trazem grandes dúvidas. São os diferentes, aqueles que não querem apenas sexo, mas buscam interagir, conversar. Se mostram compreensivos, até carinhosos. As mais experientes costumam chamá-los de perigosos, por nos tirarem do objetivo, normalmente com falsas promessas, arroubos românticos cheios de carência. Além do mais, acabam por ficar mais tempo do que dispomos e depois somos nós que nos vemos com os nossos agentes, mais conhecidos como cafetões”.

Bonita, inteligente e sensual do jeito que ela é, vive passando por este tipo de situação. Peço que me conte uma ou duas passagens. Ela primeiro sorri com as lembranças que retornam. Depois me diz o seguinte:

“Eu nunca acredito em promessas de clientes. Muitos fizeram apelos prometendo mundos e fundos. Homens casados que dizem que vão deixar suas esposas e formar uma nova família, jovens arrojados querem fugir para bem longe e começar vida nova, e por aí vai. Já vi muitas garotas sofrerem desilusões irreversíveis, nunca mais foram as mesmas, como se uma doença as consumisse, a pior delas, a da frustração. Sempre preferi ser realista: estou nesta vida por não ter outra chance, mas a chance vai aparecer e quero estar inteira pra dar a virada”.

Até que um dia, aconteceu. Mas como tudo na vida dura dessas mulheres, nada é fácil...
Obs: Imagem da Internet, sem crédito.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Aqui estamos nós...

                                                           Foto da internet, sem crédito.


Aniella conta como é a vida na pensão, onde se juntam várias moças, todas cheias de sonhos e esperança, como ela diz: “Não tem diferença nenhuma dessas pensões pra estudantes, imagino. São os mesmos sonhos e desejos, ser alguém na vida. O que muda é que enquanto elas, as estudantes, recebem conhecimento e educação, nós, as prostitutas, damos o pouco que temos, principalmente a saúde”.
Diante da pergunta de como é o dia a dia na pensão, Ane muda de expressão e deixa transparecer a menina, como se recuperasse aqueles anos roubados.
“Todas consideram estar em um lugar transitório, em um momento de passagem para a sonhada liberdade e uma vida justa e tranquila. Vivemos das boas lembranças que conseguimos preservar apesar de tudo. Nossas vidas cabem dentro de caixas de sapato, velhas bolsas, caixinhas de música, um pé de meia. São as reminiscências do passado ainda tão próximo e vivo, intimidades escondidas, que nas horas de desespero visitamos, para lembrar que já existiu uma outra vida. E então confirmar que é possível reconquistar”.
Quem acrescenta é Bárbara, uma novata de quem é impossível saber a verdadeira idade. Um corpo jovem que se desfaz rapidamente, transbordando mágoa e ressentimento:
“O pior, amigo, é acordar de manhã e esperar a hora em que os animais aparecem doidos pra mostrar que são mais fortes e que a gente não passa de lixo, onde podem cuspir e botar toda a sujeira deles”.
Gabriela, a mais velha de todas, “cinquenta e dois anos, com muito orgulho e tesão”, se apresenta, ri com vontade de Bárbara. Fecha essa conversa com uma fala surpreendente:
“Não sei do que elas se queixam, todas tem uma vida boa e estão aqui porque querem. A porta está sempre aberta. Mas sabe por que não vão? Eu sei, porque não fui. Porque não vão achar nada lá fora, a família chutou, botou pra fora. Os amigos fingem que não conhecem. Os vizinhos riem e viram a cara. Aqui, pelo menos, de vez em quando alguém nos dá o que nunca tivemos; carinho e atenção. Mesmo quando dói”.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A história de Aniella 6. Aqui estamos nós...

Aniella continua o relato sobre seu destino, nem sempre fácil de ser mulher. Conta os primeiros dias sob as ordens de Washington, quando percebeu, definitivamente, que a muitas mulheres a vida não fazia concessão.



“São vistas como objetos de prazer pela maioria dos homens. E um ótimo negócio para alguns”.

Após o castigo, quando permaneceu por quarenta e oito horas sem comida, trancada no quarto da pensão, foi vestida, maquiada e levada a rua com outras quatro mulheres. Começava o trabalho.

“Não posso negar que achei o vestido lindo. Vermelho, muito justo e curto. Tinha um franzido nas laterais que ajudava a realçar a silhueta. Calcei uma sandália de couro, tipo gladiador, com as tiras amarradas pouco abaixo dos joelhos. O cabelo estava curto e, a pedido do Washington, foram improvisadas duas tatuagens; um ramo de flores na batata da perna esquerda e uma serpente cuja cauda insinuava-se pela alça do vestido, no ombro direito. Segundo ele, os homens tem fetiche com tatuagens. Não sabia muito bem o que aconteceria, o que devia fazer e como seria abordada. Juçara, a gerente, que já passara por tudo aquilo deu as dicas, me forneceu as camisinhas, um tubo de gel lubrificante, e disse que fosse afável e jamais ficasse de conversa. Nunca poderia revelar minha identidade verdadeira e, muito menos, dizer onde morava. Quanto mais rápido o programa melhor, mais clientes por noite, mais ganhos. Washington nos levou até a rua. Cada uma tinha um território demarcado e era importante manter o lugar, no futuro seríamos procuradas naquele espaço, por clientes preferenciais. A única dica de consolo do nosso “manager”, como ele se denominava, foi pra ligar se algo de muito grave acontecesse. Mais tarde perguntei o que poderia ser o, algo muito grave, e uma das meninas explicou com simplicidade: ameaça de morte, essas coisas"!


Na primeira noite, talvez por ser uma novidade naquele espaço, Aniella foi bastante assediada. Fez programas com três homens. Disse: “Cheguei a achar que não seria tão difícil aquela vida, os três foram muito educados. Um deles até me deu um pouco de prazer, quase me fez esquecer onde estava”.

Mas, infelizmente, as experiências futuras não seriam nada agradáveis. O “manager” marcava em cima e, na volta pra pensão, lá estava ele pra receber o faturamento. Sabia exatamente com quantos cada uma havia saído e questionava a duração, sempre reclamando. Usava o jargão empresarial de “meta a ser atingida”. Em sua avaliação, a média de cinco por noite, era a ideal.

Sobre isso, Aniella finaliza:
“Logo se descobre a mercadoria que se é. Nossos desejos e necessidades não contam, o que vale é a performance, o faturamento. Tudo pra, no final do mês, receber o que restou depois dos descontos de moradia, alimentação e remédios. Ao receber a primeira vez fiz a conta de que, se mantivesse a média exigida, talvez em vinte anos conseguiria juntar um mínimo pra sair daquela vida, provavelmente com um dinheirinho pra tratar o que restasse da saúde”.

Nos próximos episódios, Aniella e outras relatam o dia a dia na pensão, quando todas tentam fingir um mínimo de normalidade e felicidade. Cada uma, a seu modo, guarda as lembranças de um tempo em que a vida parecia um lugar bom pra se estar.