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quinta-feira, 18 de abril de 2013
Agência Senado) Os municípios deverão manter pelo menos um hospital de referência para atendimento emergencial, integral e multidisciplinar a vítimas de violência sexual, oferecendo, num mesmo local, tratamento médico e psicológico, atendimento profilático, facilitação do registro policial da ocorrência e coleta de material para identificação do agressor.
Essa assistência em rede está prevista em projeto (PLC 3/2013) aprovado nesta quarta-feira (10) pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), que segue agora para decisão terminativa na Comissão de Assuntos Sociais (CAS).
Presente à reunião da CDH, a autora da proposta, deputada Iara Bernardi (PT-SP), explicou que o projeto torna lei protocolo já existente no Sistema Único de Saúde (SUS), mas que não vem sendo cumprido.
– Tem que ter um hospital de referência, com regras para o atendimento policial, atendimento psicológico à vítima de violência sexual, coleta de material para possível identificação do agressor e medicamento que ela precisa receber, como a pílula do dia seguinte, para não engravidar. É um aparato que tem que funcionar em rede – disse a deputada, ao lembrar que as medidas devem ser tomadas até 72 horas após a agressão.
A proposta define violência sexual como “qualquer forma de atividade sexual não consentida” e detalha os serviços obrigatórios que devem estar disponíveis nos hospitais integrantes do SUS.
Estabelece, por exemplo, a realização de diagnóstico e tratamento das lesões, apoio psicológico, profilaxia da gravidez e das doenças sexualmente transmissíveis e informações sobre serviços sanitários disponíveis. Determina ainda a colaboração nos procedimentos policiais e investigativos, como a preservação de materiais coletados e exame de DNA para identificação do agressor.
Em voto favorável, a relatora na CDH e presidente da comissão, Ana Rita (PT-ES), elogiou o caráter amplo da proposta, que não limita o apoio à mulher vítima de violência.
– Sabemos que não são raros os casos de violência sexual contra crianças, jovens e idosos, do sexo masculino, bem como contra transexuais, travestis e homossexuais de qualquer sexo. O projeto trata de não fazer distinção de gênero entre as vítimas. Só podemos louvar esse posicionamento – frisou.
Para Ana Rita, a visão ampla de atendimento prevista na proposta facilitará a recuperação física e psicológica da vítima, contribuindo para o restabelecimento de sua autoestima e autoconfiança.
Também manifestaram apoio à proposta os senadores Paulo Paim (PT-RS), João Capiberibe (PSB-AP), Eduardo Suplicy (PT-SP), Paulo Davim (PV-RN). Na opinião de Paulo Davim, que é médico, a rede de acolhimento prevista no projeto ajudará a reduzir o sofrimento e constrangimento das vítimas de violência sexual e contribuirá para melhorar o atendimento hospitalar a esses casos.
– Os serviços em geral não têm estrutura para atender às mulheres vítimas de violência e os servidores não estão preparados para a gravidade do problema – observou, ao elogiar a iniciativa.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
RESISTÊNCIA Livro 2
Da trilogia
AQUI ESTAMOS NÓS...
1
O interfone tocou na portaria do edifício Azul Oceânico, um dos prédios que se erguem no condomínio mais luxuoso da avenida em frente à praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Da cobertura, brinca-se, é possível ver a costa africana em frente.
Seu Aníbal acabara de assumir o plantão da manhã. Ajudava a empregada do apartamento 901 a colocar as compras no elevador de serviço, quando ouviu a campainha estridente do interfone.
Desculpou-se e arrastou sessenta e oito anos de vida, e trinta e quatro de trabalho como porteiro, vinte e um dos quais só naquele condomínio, aonde chegou antes mesmo de os prédios serem habitados. Gostava de se gabar, cheio de orgulho, que durante todos esses anos nunca tivera nenhuma ocorrência em seus serviços. Para não dizer nunca, uma palavra tão radical, uma vez, ainda no início da profissão, alguém arranhara o carro do filho do Síndico, em noite que o serviço era seu. Para não ficar mal na história, investigou e descobriu que um entregador de supermercado foi o autor do sinistro. O fato acabou por contribuir com sua ascensão a porteiro chefe, com direito a uma quitinete no prédio I.
Primeiro sentou-se na cadeira, de onde dominava a entrada de pedestres e veículos. Respirou fundo em busca do oxigênio que já não chegava com facilidade aos pulmões comprometidos por anos de nicotina. Passou os olhos pelo monitor de vídeo, com imagens das áreas internas do condomínio. Só então pegou o interfone, que continuava a estrilar em desespero. Atendeu.
A voz pesada e rouca foi imediatamente identificada pelo morador.
— Portaria! Aníbal falando.
Na outra ponta a voz tinha urgência; carregada de espanto:
— Uma mulher caiu da janela, pelo amor de Deus! Bem ali no jardim...
O furgão da RTC, Rede de Televisão Carioca, estacionou em frente ao prédio, minutos depois da chegada da polícia, e pouco antes da equipe dos bombeiros. A primeira a saltar foi a produtora Sonia Gomes.
Pequena e ágil, logo esquadrinhou o local e passou as ordens ao cinegrafista Jacques Viana, que prontamente retirava o equipamento do porta-malas, com a ajuda do auxiliar José Luiz.
Dentro do furgão Antonio Más, terminava a troca de e-mails com uma de suas fontes, em seu Iphone, ao mesmo tempo em que teclava furiosamente no MacBook para fechar a redação do texto que o guiaria em outro trabalho, atravessado pelo acontecimento no bairro nobre, no condomínio classe A. Em seguida desceu para trocar ideias com a produtora Sonia Gomes, que a esta altura já apurara os primeiros dados do caso e passara a ele, pelos garranchos escritos na folha do seu manjado bloco de notas, como sempre, sem maiores conversas. Folha arrancada, entregue, e saída rápida para estruturar a transmissão da matéria, ao vivo, em edição especial do jornalismo da emissora, o Plantão da Cidade.
Antonio Más, habituado a decifrar os rabiscos de Sonia Gomes, captou a essência do caso e começou a formatar em sua cabeça o texto de abertura.
Corriam contra o relógio para serem o primeiro órgão noticioso a divulgar os acontecimentos. Era o diferencial da equipe do Plantão, sempre rodando pela cidade, contavam com uma extensa rede de colaboradores amadores, atentos aos fatos, comunicando-se entre si, via celular, twitter e rádio. Na maioria das vezes chegavam rápido aos locais informados. Se, por acaso a distância, ou o trânsito pesado, impedisse a breve locomoção da Van, entrava em cena um dos quatro “Motofocas”, jovens jornalistas contratados com suas motocicletas, a fim de cumprirem este papel. Deslocavam-se com eficiência, apuravam os fatos, passavam diretamente para o rádio do furgão. De posse dos dados Antonio Más fazia entradas a caminho do local, muitas vezes, havendo condições técnicas, dialogava ao vivo com o Motofoca.
O Plantão da Cidade era recente, pouco mais de um ano no ar, mas já colecionava prêmios, matérias em revistas e jornais, além de comentários favoráveis. A chamada para as intervenções, dizia: “Quer saber o que vai pela cidade?, se liga no Plantão”.
Com a câmera enquadrando sua figura em plano americano, ou seja, do joelho para cima, tendo como fundo o conjunto de prédios do condomínio, Antonio Más fez sua primeira entrada, depois de chamado pelo âncora diretamente dos estúdios.
— Morador do Condomínio de luxo, Azul Oceânico, seu Eugênio Figueira de Mello, aposentado de setenta e sete anos, caminhava em sua varanda, quando viu passar voando, o que lhe pareceu ser uma mulher. Confirmou ao chegar ao parapeito a tempo de ver a terrível aterrissagem. Como não é normal, e nunca será, alguém sair voando de casa, chamou o porteiro. Ainda não podemos dizer muita coisa, apenas que a vítima era moradora do décimo segundo andar, informou o porteiro. Ainda não se sabe se caiu ou
foi jogada. O fato aconteceu há não mais do que vinte minutos. — Valorizou. — Nesse momento a equipe de resgate dos bombeiros já chegou ao local. A polícia técnica está a caminho e nós vamos entrar na cena pra apurar todos os dados. Enquanto esperam por novas e atualizadas notícias, conheçam um pouco do cenário do acontecimento.
De maneira ágil, a equipe comandada pelo editor Vander Régis, colocou no ar imagens tiradas do Google, com informações sobre o bairro, o condomínio e o prédio em questão.
Em um grande apartamento adaptado para servir de escritório à Agência Rian, no bairro do Flamengo na zona sul do Rio de Janeiro, Joele Rocha, jornalista, acabara de ver o Plantão da Cidade e de receber um alerta do twitter em seu celular.
— Esse cara, Antonio Más, é impressionante. Nem bem entrou ao vivo na TV, já twitou sobre a matéria. — Comentou com Elfi Danovic, sua sócia na Agência e vizinha de mesa. — Acho que temos alguma coisa aqui.
— O que foi? — Quis saber Elfi, envolvida com atualizações do site.
— Olha só. Sabe aquele condomínio Azul Oceânico na Barra.
— O endereço dos famosos?
— Mais de políticos do que de artistas. Famosos tanto quanto. Parece que uma mulher caiu do décimo segundo andar, ou foi jogada.
— Viu no Plantão? Já se sabe quem é?
— Ainda não. Acabou de rolar.
— Começaram cedo hoje. — Disse Elfi Danovic enquanto digitava com agilidade e precisão impressionantes. — Rapidinho entro aqui no site da Prefeitura, quero ver os IPTUs e seus sobrenomes.
— Vou ficar ligada no Plantão da Cidade, me diz o que descobrir.
— Claro gata. Pelo endereço gente anônima é que não é. Falta pouco. Os caras instalaram um novo código de segurança infalível, segundo disseram, lembra? Vamos ver quanto tempo resiste. Ops, já entrei, nem dois minutos de resistência. Ah, mas olha só, tem um spy metido a fofoqueiro aqui, louco pra saber quem é o invasor. Aqui não bonitinho. Vou te deixar maluco.
— Ei — cobrou Joele Rocha em tom de brincadeira —, já tem mais de cinco minutos, perdeu essa.
— Que nada, já tenho tudo aqui, só vou mandar o amiguinho aqui caçar coelho na cartola de outro. Pronto. Como previsto, décimo segundo andar, dois apartamentos, 1201, senhor Juarez Fernandes de Castro. Peraí, um minuto, quem é o boneco? Taí o que você queria: Deputado Federal por São Paulo, segundo mandato.
— Aqui ainda não diz de qual apartamento foi.
— O 1202 é de uma senhoura que responde pelo nome de Betina Kipfer. Nome alemão ou suíço.
— Quem é a individua? Conhecida?
— Nada demais, pelo menos nenhuma fofoca, nem aparições em salões nobres da cidade. Nada registrado.
— Que curioso. Proprietária de um apartamento desses?
— Mais estranho ainda você vai achar agora. Sabe qual é a idade de dona Betina?
— Diga.
— Vinte e nove anos.
— Uau! Tem foto aí?
— Nada. Misteriosa a moça, viu. Só encontrei o nome por causa do registro de imóveis. Diz também que a cidade natal dela é Sombrio, cara que lugar pra nascer, em Santa Catarina. Divorciada, profissão professora.
— Êpa, divorciada é? É aí que se explica muita coisa. Só assim dá pra imaginar uma professora morando em um dos apartamentos mais caros da cidade. Vai entrar de novo o Plantão. — Joele ajeitou os fones nos ouvidos.
— Apura aí que vou continuar o que estava fazendo. Tenho dois dias de atraso. — Disse Elfi Danovic. Minimizou a pesquisa e abriu a tela com os complicados gráficos em que trabalhava.
— CQD — como queríamos demonstrar, expressão matemática que Joele Rocha sempre usava —, quem caiu ou foi jogada do décimo segundo andar, foi a professora primária, nascida em Sombrio, diz aqui Antonio Más, o nosso repórter predileto. Esse cara consegue fazer piadinha de cada coisa...
— Tipo o quê? — Arguiu Elfi, sem tirar os olhos da tela de seu MAC.
— Perguntou o que e a quem teria vindo ensinar uma professora da distante cidade de Sombrio, em um apartamento de alto luxo encravado no reduto de classe média alta do Rio de Janeiro. E arremata: Que tipo de matéria ela domina?
— Você acha esse cara legal? — Perguntou Elfi Danovic afastando um pouco o rosto da tela. — Acho ele meio esquisito. Machista, sei lá.
— Às vezes também acho. Mas não dá pra negar que ele faz um jornalismo diferente, sem a caretice que assola a maioria dos canais de TV. Tira o tom dramático, apelativo, sem tirar a seriedade.
— Não dá pra brincar com um suicídio, ou assassinato, e nesse caso ele está é prejulgando a moça. — Replicou Elfi.
— Espera aí Elfi. Sem essa de politicamente correto. Pensa bem, uma pobre e inocente garota ela não é. Vamos ver o que será apurado. E o Antonio Más diz coisas que as pessoas pensam, presta atenção. — Defendeu Joele Rocha.
— Sei não, essa aí é mais uma vítima, isso sim. Sua corporativista.
— Então fica aí que vou à luta. Vamos ver o que isso aí vai render...
— Vem cá. — Elfi girou sua cadeira para encarar a sócia. — Hoje é só citação, informação, né?
— Claro. Vou apurar. Pela hora — ela olhou no canto da tela de seu notebook — quase onze horas, isso aí vai render o dia todo. Ligo mais tarde.
Joele desligou o computador portátil e o enfiou na mochila, sempre abarrotada. Foi até a mesa de Elfi e lhe deu um beijo no alto da cabeça.
— Depois dá uma olhada na moçada da outra sala. Confesso que estou morrendo de curiosidade pra ver o novo layout. Qualquer coisa me liga. Beijo gata.
Aniella Shimura se despediu de sua advogada, Ruth Monteiro e entrou no elevador. Foi cumprimentada pelo ascensorista e respondeu distraída. Sua cabeça estava cheia. A reunião fora convocada pela advogada com o objetivo de acertarem os últimos detalhes de um empreendimento que Aniella pretendia fazer à distância, em uma cidadezinha do interior do Estado de Mato Grosso. Não por acaso sua cidade natal, de onde saíra há quase cinco anos e nunca mais colocara seus pés, embora fizesse visitas sentimentais ao passado recente, principalmente nas madrugadas insones e solitárias.
Ruth Monteiro argumentara que qualquer negócio só pode dar certo se administrado de perto, por quem investe. E antes de qualquer atitude, já que não tinha ninguém de confiança por lá, ela deveria ir ao local e estudar melhor os planos, ver o que queria, para aí sim implementar o interesse. Ouviu as ponderações da cliente, mesmo assim sustentava que negócios e sentimentos são por princípio, antagônicos.
Entendia as razões como amiga, mas não podia, como advogada e conselheira, deixar de levantar a questão. No entanto, dado o conselho, cabia-lhe acatar as vontades da cliente, que lhe pagava muito bem.
Intimamente Aniella Shimura reconhecia a preocupação da advogada. Achava mesmo que como negócio, o investimento era péssimo, sem futuro, pelo menos na teoria. Porém não estava preocupada com lucros e resultados positivos. Não era isso em absoluto. O que adiantava ter o dinheiro, todo aquele dinheiro se não pudesse fazer um reparo em algo que há tanto tempo corroía seu espírito, tirava-lhe a alegria mesmo nos melhores momentos. Por vezes se pegava pensando se não estava buscando vingança, ou uma maneira de mostrar que dera a volta por cima. Transformara-se e queria transformar pessoas, vidas, o lugar. Tudo bem seria um péssimo investimento, mas teria o doce sabor da vingança, e quem, em sã consciência, deixaria de fazer o mesmo, com os recursos que conquistara? Ia fazer e pronto. Ganharia o mais importante, o prazer de realizar um sonho.
Desceu ao estacionamento subterrâneo, sob a Praça Paris. Pegou o carro, pagou, não sem reclamar do preço, um absurdo. Ao sair para o trânsito, tranquilo àquela hora, no aterro do Flamengo, seu celular tocou. Acionou o viva voz e atendeu. Era Joele Rocha.
— Oi Joele, tudo bem?
— Tudo Ane, e você?
— Às voltas com reuniões, mas tudo bem. Diga aí.
— Acho que temos um novo caso. Lá na Barra da Tijuca. Estou indo pra lá.
— Está dirigindo?
— Estou.
— Já falei pra você instalar um viva voz....
— É rapidinho. Uma moça, jovem, vinte nove anos, caiu, se jogou, ou foi jogada do décimo segundo andar, naquele condomínio de luxo, Azul Oceânico. Liga o rádio, tem repercussão do caso. Depois falamos.
— Certo. Beijo.
Desligaram os telefones e Aniella ligou o rádio. Esperou um pouco e logo uma repórter foi chamada a dizer sobre o andamento do mistério do Azul Oceânico.
Ouviu tudo com a maior atenção. Colocaram no ar breves depoimentos do porteiro chefe do prédio, do primeiro policial que chegou ao local e do morador, um
senhor aposentado que passou pelo dissabor de presenciar a queda. Anotou mentalmente o nome da moça.
Passaria em casa rapidamente, precisava se trocar apanhar alguns objetos, e seguiria para o local.
Todos os seus sentidos entraram em alerta. O que quer que tenha provocado a queda da moça chamada Betina Kipfer, seria ruim. Ela iria descobrir.
terça-feira, 19 de junho de 2012
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Mapa da Violência 2012
Aqui estamos nós diante de novos e atualizados dados,
assustadores! Visualizar estas pesquisas é importante pra sairmos do "ouvi
dizer". É real e acontece em todos os níveis sociais, econômicos e
culturais.
Não dá pra ficar indiferente. Leia a pesquisa, converse, dê
ideias, meta a colher.
Foto da internet, sem crédito
Acaba de ser divulgado o Mapa da Violência 2012
Segundo o estudo do Instituto Sangari - coordenado pelo sociólogo Júlio Jacobo Waiselfiz e realizado em parceria com a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) -, de 1980 a 2010, foram assassinadas no país cerca de 91 mil mulheres, 43,5 mil só na última década. O número de mortes nesses 30 anos passou de 1.353 para 4.297, o que representa um aumento de 217,6% nos índices de assassinatos de mulheres.
Acesse em pdf o caderno complementar do Mapa da Violência 2012 - Homicídio de Mulheres no Brasil
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Aqui estamos nós... 2012!
Deu no Fantástico. Talvez agora muitas pessoas passem a acreditar.
http://tinyurl.com/7ch2aj3
terça-feira, 27 de março de 2012
Aqui estamos nós... Um encontro diferente. (continuação 2)
Um mês atrás falávamos aqui do encontro de
Aniella, pela primeira vez, com um rapaz diferente dos outros. Queria entender
o que fazia a diferença. Só para relembrarmos as últimas palavras dela:
- Então o que fez a diferença?
“Não foi na primeira vez, não. Quer dizer, naquela
noite alguma coisa explodiu lá dentro. Não foi exatamente um orgasmo. Por
incrível que pareça, foi melhor. Me senti segura, embora ele continuasse sem
dizer nada. Me assustei quanto ele saiu de cima de mim, virou de lado e pegou
uma arma, e ficou lá lustrando o ferro que já brilhava. Não sei, mas ao invés
de medo, logo entendi que aquele rapaz, magro, alto e bonito, fazia parte do
meu mundo”.
- E depois, o que aconteceu? – Insisti.
- Foi estranho, porque ele sumiu. Passou um longo
tempo até que reapareceu. Contra todas as regras da profissão, não consegui
tirar da cabeça os momentos passados com ele. Sei lá, mas o jeito dele, mesmo
parecendo assim, distante, em outro mundo, tinha um quê de carinho. Mais até do
que isso, de cumplicidade. Pareceu, pelo menos aquela noite, que ele entendia a
coisa mais difícil da profissão, a solidão que arrasa a gente depois que a
noite acaba. Bateu em mim, que sofríamos do mesmo mal.
- E quando reapareceu como foi?
- Eu sabia que ele foi lá na rua me procurar. Seu
rosto, quando nos encaramos, revelava mais do que o desejo urgente de sempre.
Tinha alguma coisa no jeito dele de olhar que me ganhou.
- O que era essa coisa?
- Ah, nem sabia que existia, mas é o tipo da coisa
que aprendemos rápido. Era ternura.
- Então a partir daí foi uma paixão?
- Na verdade, não. Esse tipo de sentimento é muito
perigoso. Deu foi um medo danado. E esse encontro coincidiu com o pior período
que passei. Nem sei como sobrevivi.
Aniella fala sobre o tal período na próxima
semana.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Pequena vitória, grande avanço.
Ontem acompanhei atentamente as discussões do STF. Os Ministros votaram e confirmaram por unanimidade a legalidade da Lei Maria da Penha. Incrível, mas depois de mais de cinco anos, ainda havia desacordos sobre uma série de aplicações. Inclusive, alguns juízes, consideravam alguns artigos inconstitucionais.
Quero ressaltar a decisiva intervenção da Ministra Carmem Lúcia. Deixou claro, dizendo que mesmo como juíza sofre preconceitos por ser mulher. Só isso, o que não é pouco, reafirma a necessidade da luta constante e de uma vigilância ampla em todas as camadas sociais.
Aqui estamos nós...
Vejam a matéria:
Maria da Penha vale mesmo sem queixa da mulher agredida, diz STF
Redação SRZD | Nacional | 09/02/2012 19h48
Esta foi a primeira ação analisada durante a tarde e tem autoria da Presidência da República. O pedido era para que o STF confirmasse a legalidade da Lei Maria da Penha para evitar interpretações de que ela não trata homens e mulheres de forma igual. A norma foi editada em 2006, mas ainda há diversos juízes que resistem em aplicá-la. Um juiz de Minas Gerais chegou a ser afastado do cargo pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) ao chamar a norma de "demoníaca".
A representante da União no julgamento, Gracie Fernandes, citou dados que, segundo ela, "espancam, de uma vez por todas, a tese de que a lei ofende o princípio da igualdade entre homem e mulher". Ela revelou que, em 92,9% dos casos de violência doméstica, a agressão é praticada pelo homem contra a mulher, e que, em 95% dos casos de violência contra mulher, o agressor é seu companheiro. De acordo com a advogada, 6,8 milhões de brasileiras já foram espancadas no ambiente doméstico, com um episódio de violência registrado a cada cinco segundos.
Os ministros acompanharam integralmente o voto do relator, Marco Aurélio Mello, para quem a lei foi um "avanço para uma nova cultura de respeito". O voto mais marcante foi o da ministra Cármen Lúcia, a mais antiga mulher da composição atual do STF. Fazendo paralelo com sua própria experiência, a ministra disse que ainda hoje sofre preconceito por ser uma das (duas) ministras do Supremo. "Acham que juízas desse tribunal não sofrem preconceito, mas sofrem. Há gente que acha que isso aqui não é lugar de mulher".
Os ministros agora vão estudar uma ação de inconstitucionalidade da Procuradoria-Geral da República, também em relação à Lei Maria da Penha. O objetivo que é o Ministério Público possa denunciar agressores mesmo que as mulheres desistam de fazê-lo.
Com informações da Agência Brasil
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA
Aqui estamos nós... diante de mais uma tragédia familiar, que sempre nos parece impossível, distante, coisa que só acontece nas classes baixas. Quando falamos da questão cultural, da importância de informar e formar nossos jovens, é por acreditar que esse é o caminho para, no mínimo incutir o respeito entre os sexos, nas futuras gerações.
Leiam abaixo a matéria publicada no Estado de Minas online pra entender a cronologia do drama vivido per essa família e as dificuldades de uma reação da justiça:
Leiam abaixo a matéria publicada no Estado de Minas online pra entender a cronologia do drama vivido per essa família e as dificuldades de uma reação da justiça:
Por: Pedro Ferreira, Alfredo Durães, Guilherme Paranaiba
Ela, servidora pública federal, 35 anos, bonita, bem-sucedida, mãe apaixonada de dois filhos. Ele, pai das crianças, 49 anos, empresário do ramo de locação de veículos, conhecido pelo gosto refinado e pela vaidade. Moravam em residencial de alto padrão em Nova Lima, Sul da Grande BH. Por trás do assassinato da procuradora da Advocacia Geral da União Ana Alice Moreira de Melo, encontrada com várias perfurações pelo corpo ontem no imóvel do casal, no Condomínio Villa Alpina, está um enredo de traição, ameaças e denúncias oculto pela aparência de luxo e conforto transmitida pelo padrão de vida da família.
A história é o que transparece do inquérito sobre os pedidos de proteção feitos contra o marido da vítima, o empresário Djalma Brugnara Veloso, que teve a prisão preventiva decretada como principal suspeito do crime, ocorrido por volta das 4h30 de ontem. Os documentos que tramitam no Fórum Augusto de Lima, em Nova Lima, mostram que o desfecho trágico começou a se desenhar há três anos e que as medidas determinadas pela Justiça foram inúteis para proteger a vítima.
O Auto 188.12.000.552-8J detalha os dois pleitos dos advogados da procuradora, inclusive as ameaças de morte feitas por Djalma e os fatos que levaram o casal ao processo de separação. De acordo com a petição feita pelo advogado Murilo Andrade, Ana Alice alegava ter descoberto, há três anos, que o marido tinha uma amante. Desde então o casamento ficou abalado. Ela tentou manter a união pensando nos filhos, mas, no começo do ano passado, Djalma viajou sem informar destino e passou um mês fora de casa, de acordo com os documentos.
O fato levou o casal a uma rotina de desentendimentos, que culminou com uma briga, no dia 22, no clube que frequentavam. Djalma viu a mulher passando uma mensagem pelo telefone celular e a ameaçou, querendo saber para quem era o texto. Sempre segundo os autos, a briga prosseguiu na casa dos dois, à noite, momento em que o empresário, transtornado, teria quebrado o telefone da mulher e o notebook que ela usava para trabalhar. Também teria se apoderado de um modem e de um pen drive com documentação pessoal de Ana Alice.
Na representação, as ameaças que teriam sido proferidas por Djalma estão entre aspas: “Vou te dar um tiro na cabeça”; “você é uma vagabunda”; “vou te matar”. Adiante, o advogado da vítima descreve que em determinado momento, em casa, o empresário esquentou água no micro-ondas e jogou na direção de Ana Alice, atingindo-a parcialmente e a seu filho menor, embora sem gravidade. Ele também teria ameaçado colocar faixas ofensivas na rua onde a mulher trabalhava.
Diante dos argumentos, o juiz titular da Vara Criminal e da Infância e Juventude de Nova Lima, Juarez Morais de Azevedo, que tem 23 anos de magistratura, proferiu, já no dia 25, a seguinte sentença: “Concedo-lhe as medidas protetivas de aproximação da ofendida e de seus familiares pelo agressor, que deverá manter o limite mínimo de 30 metros de distância deles, assim como fica proibido de entrar em contato com os mesmos por qualquer meio de comunicação, frequentar determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da ofendida. Quanto às demais medidas requeridas, considerando se tratarem de providências mais drásticas, designo o dia 15/02 de 2012, às 13h, para oitiva da ofendida e de seu ofensor. Intimem-se. Notifiquem-se”.
Anteontem, um oficial de Justiça conseguiu intimar Djalma, fato que, de acordo com o advogado Murilo de Andrade, que defendia Ana Alice, pode ter levado o empresário a cometer o crime. No mesmo dia, mas às 18h30, o juiz Juarez Morais expedia outra sentença, ampliando as medidas protetivas. Nessa última decisão, o magistrado determinava o afastamento imediato do suspeito da casa da família e que ele mantivesse pelo menos 500 metros de distância da mulher. Não houve tempo de intimar o acusado, que seria notificado na manhã de ontem. Às 4h30, Ana Alice estava morta.
BATE-BOCA
Segundo relato recebido pela polícia, Djalma discutiu com a mulher momentos antes do crime. Não era algo novo na rotina do casal, como indica o processo que tramitava no Fórum de Nova Lima. Amigos da procuradora garantem que ela costumava reclamar da agressividade do companheiro e das crises de ciúme, que não poupavam nem a relação dela com os filhos, os meninos de 3 e7 anos.
Militares que atenderam a ocorrência informaram que o empresário entrou no condomínio por volta das 20h30. Não há informações se Djalma foi direto para a casa da família ou se passou antes pela casa de sua mãe, vizinha à do casal. Na madrugada de ontem, apavorada com a discussão entre os dois, a babá das crianças se trancou no banheiro com os meninos, temendo o pior. Passados momentos de muitos gritos e confusão, a funcionária deixou o cômodo e encontrou a advogada ensanguentada no quarto, com várias perfurações, de acordo com a polícia. Segundo a PM, a saída do empresário se deu momentos depois, por volta das 4h30. No fim a noite de quinta-feira foi encontrado morto em um motel.
A crise
. O casal se conheceu há 19 anos, quando ela tinha 16, e estava casado havia 13.
. Ana Alice relatou ter descoberto, há três anos, que Djalma a traía
. Há um ano, segundo a mulher, o empresário saiu de casa dizendo que ia viajar. Passou um mês fora, sem informar o paradeiro
. Em 22 de janeiro, Djalma teve uma crise de ciúmes e agrediu a mulher verbalmente, quebrando objetos pessoais dela. Ele também teria esquentado água no micro-ondas e atirado contra Ana Alice, segundo relatou a vítima
. Em 24 de janeiro, acreditando que a situação atingira um limite insuportável, Ana Alice prestou queixa contra o marido na Delegacia de Nova Lima
. No dia seguinte, o juiz Juarez Morais de Azevedo decretou medidas protetivas em favor da advogada
. Na quarta-feira, Djalma recebeu de um oficial de Justiça as determinações do juiz
. No mesmo dia, o juiz ampliava as medidas protetivas, a pedido do advogado da vítima, que as considerou insuficientes. A notificação seria entregue na manhã de ontem
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
A história de Aniella 6. Aqui estamos nós...
Aniella continua o relato sobre seu destino, nem sempre fácil de ser
mulher.
Conta os primeiros dias sob as ordens de Washington, quando percebeu,
definitivamente, que a muitas mulheres a vida não fazia concessão.
“São vistas como objetos de prazer pela maioria dos homens. E um ótimo negócio para alguns”.
Após o castigo, quando permaneceu por quarenta e oito horas sem comida, trancada no quarto da pensão, foi vestida, maquiada e levada a rua com outras quatro mulheres. Começava o trabalho.
“Não posso negar que achei o vestido lindo. Vermelho, muito justo e curto. Tinha um franzido nas laterais que ajudava a realçar a silhueta. Calcei uma sandália de couro, tipo gladiador, com as tiras amarradas pouco abaixo dos joelhos. O cabelo estava curto e, a pedido do Washington, foram improvisadas duas tatuagens; um ramo de flores na batata da perna esquerda e uma serpente cuja cauda insinuava-se pela alça do vestido, no ombro direito. Segundo ele, os homens tem fetiche com tatuagens. Não sabia muito bem o que aconteceria, o que devia fazer e como seria abordada. Juçara, a gerente, que já passara por tudo aquilo deu as dicas, me forneceu as camisinhas, um tubo de gel lubrificante, e disse que fosse afável e jamais ficasse de conversa. Nunca poderia revelar minha identidade verdadeira e, muito menos, dizer onde morava. Quanto mais rápido o programa melhor, mais clientes por noite, mais ganhos. Washington nos levou até a rua. Cada uma tinha um território demarcado e era importante manter o lugar, no futuro seríamos procuradas naquele espaço, por clientes preferenciais. A única dica de consolo do nosso “manager”, como ele se denominava, foi pra ligar se algo de muito grave acontecesse. Mais tarde perguntei o que poderia ser o, algo muito grave, e uma das meninas explicou com simplicidade: ameaça de morte, essas coisas"!
Na primeira noite, talvez por ser uma novidade naquele espaço, Aniella foi bastante assediada. Fez programas com três homens. Disse: “Cheguei a achar que não seria tão difícil aquela vida, os três foram muito educados. Um deles até me deu um pouco de prazer, quase me fez esquecer onde estava”.
Mas, infelizmente, as experiências futuras não seriam nada agradáveis. O “manager” marcava em cima e, na volta pra pensão, lá estava ele pra receber o faturamento. Sabia exatamente com quantos cada uma havia saído e questionava a duração, sempre reclamando. Usava o jargão empresarial de “meta a ser atingida”. Em sua avaliação, a média de cinco por noite, era a ideal.
Sobre isso, Aniella finaliza:
“Logo se descobre a mercadoria que se é. Nossos desejos e necessidades não contam, o que vale é a performance, o faturamento. Tudo pra, no final do mês, receber o que restou depois dos descontos de moradia, alimentação e remédios. Ao receber a primeira vez fiz a conta de que, se mantivesse a média exigida, talvez em vinte anos conseguiria juntar um mínimo pra sair daquela vida, provavelmente com um dinheirinho pra tratar o que restasse da saúde”.
Nos próximos episódios, Aniella e outras relatam o dia a dia na pensão, quando todas tentam fingir um mínimo de normalidade e felicidade. Cada uma, a seu modo, guarda as lembranças de um tempo em que a vida parecia um lugar bom pra se estar.
“São vistas como objetos de prazer pela maioria dos homens. E um ótimo negócio para alguns”.
Após o castigo, quando permaneceu por quarenta e oito horas sem comida, trancada no quarto da pensão, foi vestida, maquiada e levada a rua com outras quatro mulheres. Começava o trabalho.
“Não posso negar que achei o vestido lindo. Vermelho, muito justo e curto. Tinha um franzido nas laterais que ajudava a realçar a silhueta. Calcei uma sandália de couro, tipo gladiador, com as tiras amarradas pouco abaixo dos joelhos. O cabelo estava curto e, a pedido do Washington, foram improvisadas duas tatuagens; um ramo de flores na batata da perna esquerda e uma serpente cuja cauda insinuava-se pela alça do vestido, no ombro direito. Segundo ele, os homens tem fetiche com tatuagens. Não sabia muito bem o que aconteceria, o que devia fazer e como seria abordada. Juçara, a gerente, que já passara por tudo aquilo deu as dicas, me forneceu as camisinhas, um tubo de gel lubrificante, e disse que fosse afável e jamais ficasse de conversa. Nunca poderia revelar minha identidade verdadeira e, muito menos, dizer onde morava. Quanto mais rápido o programa melhor, mais clientes por noite, mais ganhos. Washington nos levou até a rua. Cada uma tinha um território demarcado e era importante manter o lugar, no futuro seríamos procuradas naquele espaço, por clientes preferenciais. A única dica de consolo do nosso “manager”, como ele se denominava, foi pra ligar se algo de muito grave acontecesse. Mais tarde perguntei o que poderia ser o, algo muito grave, e uma das meninas explicou com simplicidade: ameaça de morte, essas coisas"!
Na primeira noite, talvez por ser uma novidade naquele espaço, Aniella foi bastante assediada. Fez programas com três homens. Disse: “Cheguei a achar que não seria tão difícil aquela vida, os três foram muito educados. Um deles até me deu um pouco de prazer, quase me fez esquecer onde estava”.
Mas, infelizmente, as experiências futuras não seriam nada agradáveis. O “manager” marcava em cima e, na volta pra pensão, lá estava ele pra receber o faturamento. Sabia exatamente com quantos cada uma havia saído e questionava a duração, sempre reclamando. Usava o jargão empresarial de “meta a ser atingida”. Em sua avaliação, a média de cinco por noite, era a ideal.
Sobre isso, Aniella finaliza:
“Logo se descobre a mercadoria que se é. Nossos desejos e necessidades não contam, o que vale é a performance, o faturamento. Tudo pra, no final do mês, receber o que restou depois dos descontos de moradia, alimentação e remédios. Ao receber a primeira vez fiz a conta de que, se mantivesse a média exigida, talvez em vinte anos conseguiria juntar um mínimo pra sair daquela vida, provavelmente com um dinheirinho pra tratar o que restasse da saúde”.
Nos próximos episódios, Aniella e outras relatam o dia a dia na pensão, quando todas tentam fingir um mínimo de normalidade e felicidade. Cada uma, a seu modo, guarda as lembranças de um tempo em que a vida parecia um lugar bom pra se estar.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Um exemplo pela janela. Aqui estamos nós...
Há dias durante o almoço, minhas duas filhas, 15 e 12 anos,
perguntavam sobre este trabalho que desenvolvo agora. Queriam saber do que
falava o Aqui estamos nós... A mais velha lê regularmente o blog, comenta e até
compartilha nas redes sociais.
Como de costume, nossas conversas à mesa se prolongam além
do cotidiano. Falamos de tudo em papos abertos e esclarecedores. Expliquei a
motivação, em parte, exatamente por ser pai de duas garotas que começam a
“sair” para a vida, a “trocar” socialmente. Falei um pouco das pesquisas realizadas por entidades e órgãos oficiais, contei casos conhecidos, mas mostrei também as conquistas, os avanços e os exemplos.
Em casa, as duas tem um ótimo exemplo, a mãe médica que trabalha fora e ainda cuida da casa e é absolutamente presente na educação e na formação de ambas.
Dias depois tivemos, ao vivo, bem debaixo de nossa janela,
em Ipanema, o exemplo negativo:
No final da manhã ouvimos gritos vindos da rua. Uma voz
desesperada de mulher protestava contra alguém que ameaçava a amiga. Curiosos,
chegamos a tempo de assistir a todo o desenrolar da cena. Um homem negro, muito
forte e bem vestido, segurava uma moça loira,
aparentemente drogada, ou alcoolizada. A outra, que se manifestava,
dizia que ia chamar a polícia, que ele largasse a amiga, que parasse de
agredi-la, que era um covarde.
Logo juntou uma pequena multidão para assistir, à distância,
o triste espetáculo. O homem tentava se
desvencilhar da amiga e puxava com força a loira, que acabou caindo de costas
na calçada. Nesse momento chegou um carro da polícia militar. A amiga disse ao
homem: “agora vai se ferrar, acabou de agredir ela na frente da polícia”.
O policial desceu, com a arma na mão. Pra nosso espanto,
repreendeu a amiga e a afastou do casal. Inconformada a moça gritava o absurdo
da situação. O policial falou com o homem, pararam um táxi, o homem enfiou a
loira no banco de trás e entrou em seguida . Com a “proteção” do policial o
táxi partiu. O policial voltou-se para a amiga e mandou que ela calasse a boca
e fosse cuidar da própria vida.
Minha filha ficou num estado de indignação compatível com o
que acabara de ver. Experimentava, pela
primeira vez, a sensação dolorosa de impotência.
Falamos muito sobre aquele exemplo, de como a coisa funciona,
bem ali debaixo da janela. De como estamos distantes da justiça e presos a esta
maldita cultura de impunidade, principalmente quando se trata de violência
contra a mulher. Mas nem tudo está perdido. Minha filha concluiu com a frase: “Enquanto precisarmos de proteção nada vai mudar. Temos é que virar esse jogo”.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Aqui estamos nós... O outro lado da mesma moeda.
Foto da internet - sem crédito
Pouco vamos saber sobre a vida privada desse cara muito magro, agitado como se algum dia fora vítima de uma descarga elétrica. Só cheguei, a saber, que é filho de pai desconhecido e de uma técnica em enfermagem, que se aposentou em um hospital público. Teve ou tem uma irmã, que segundo ele, se desentendeu com a mãe e caiu na vida. “Não faz o Rio de Janeiro a vagabunda, se não eu saberia”. Mais nada além disso.
Sobre seu ofício, considera um trabalho como outro qualquer, não obstante, reconheça algumas ilegalidades. No único momento em que riu, afirmou: “Já estive na “colônia de férias” por causa disso, mas só de passagem”.
Outra coisa que diz é: “Nunca obriguei ninguém a entrar nessa vida. As meninas ficam loucas pra começar logo, arrumar alguma grana, pagar uma dívida, dar algo ao filho. Todas querem pra ontem. E vou lhe dizer: falo tudo o que vão ter que fazer. Nesses anos todos só umas duas, depois de saber qual era o trabalho, sumiram. A maioria até fica meio assim, mas acaba topando. Não tem solução. O que podem fazer?”.
Perguntei: Você trabalha por conta própria, ou pra alguém? A resposta: “Ô malandro, ta achando o quê? Isso é profissional, coisa de empresa multinacional. Quem sou eu...”
Dá dinheiro, quanto por mês, em média? “Ta brincando? Milhões, muitos milhões. Mas não sei ao certo não”.
O celular dele tocou. Falou por uns minutos e se despediu: “Vou nessa, tenho uma entrega”.
Antes mandei uma última pergunta: Que nome você dá a sua profissão? “Cara, sou um manager. Ah, também aquele que leva o prazer”.
Sem dizer mais nada partiu com o celular grudado na orelha, acertando os detalhes da “entrega”.
Vou falar hoje do lado coroa da mesma moeda. Não na conotação de mais velho, e sim no sentido do administrador. Aquele,
que ao contrário do outro, nunca mostra a cara.
Estou falando da figura do Washington.
Este sujeito não é do tipo com o qual se senta para
levar um papo, ou fazer uma entrevista. Só pude chegar até ele por meios de
subterfúgios que a própria Aniella orquestrou, quando disse a ela que seria
fundamental ouvir este personagem. O encontro se deu em uma padaria, tipo
lanchonete, em pé diante do balcão, frente a duas xícaras de café. Estou falando da figura do Washington.
Pouco vamos saber sobre a vida privada desse cara muito magro, agitado como se algum dia fora vítima de uma descarga elétrica. Só cheguei, a saber, que é filho de pai desconhecido e de uma técnica em enfermagem, que se aposentou em um hospital público. Teve ou tem uma irmã, que segundo ele, se desentendeu com a mãe e caiu na vida. “Não faz o Rio de Janeiro a vagabunda, se não eu saberia”. Mais nada além disso.
Sobre seu ofício, considera um trabalho como outro qualquer, não obstante, reconheça algumas ilegalidades. No único momento em que riu, afirmou: “Já estive na “colônia de férias” por causa disso, mas só de passagem”.
Outra coisa que diz é: “Nunca obriguei ninguém a entrar nessa vida. As meninas ficam loucas pra começar logo, arrumar alguma grana, pagar uma dívida, dar algo ao filho. Todas querem pra ontem. E vou lhe dizer: falo tudo o que vão ter que fazer. Nesses anos todos só umas duas, depois de saber qual era o trabalho, sumiram. A maioria até fica meio assim, mas acaba topando. Não tem solução. O que podem fazer?”.
Perguntei: Você trabalha por conta própria, ou pra alguém? A resposta: “Ô malandro, ta achando o quê? Isso é profissional, coisa de empresa multinacional. Quem sou eu...”
Dá dinheiro, quanto por mês, em média? “Ta brincando? Milhões, muitos milhões. Mas não sei ao certo não”.
O celular dele tocou. Falou por uns minutos e se despediu: “Vou nessa, tenho uma entrega”.
Antes mandei uma última pergunta: Que nome você dá a sua profissão? “Cara, sou um manager. Ah, também aquele que leva o prazer”.
Sem dizer mais nada partiu com o celular grudado na orelha, acertando os detalhes da “entrega”.
Antes de publicar aqui, conversei com a Aniella e
lhe mostrei o que gravei sem que ele soubesse. Ela apenas disse uma frase:
“Se existe
monstro nesse mundo, essa é a voz dele”.
domingo, 27 de novembro de 2011
Socorro Internacional
A Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180 amplia seus serviços para assistir brasileiras em situação de risco na Espanha, em Portugal e na Itália. "É a primeira porta que se abre para as cidadãs fora do país, nesses três países", afirma Jadelza de Andrade Araújo, coordenadora do Ligue 180, que explica que, assim como no Brasil, a ligação no exterior é gratuita e confidencial. Igualmente, o serviço atenderá durante as 24 horas, todos os dias da semana, inclusive nos feriados.
"Esse é um programa para atender mulheres brasileiras fora do país, que são vitimizadas de formas diferentes. Mas o que as unifica é a necessidade de orientação e amparo para resolver seus problemas", disse a ministra da Secretaria de Política para Mulheres, Iriny Lopes, no lançamento do serviço Ligue 180 Internacional, que tem como principal alvo as mulheres que sofrem maus-tratos de parceiros, são obrigadas a se prostituir, trabalham em condições precárias ou são "vítimas de organizações criminosas e foram sequestradas".
"Há uma grande incidência de casos desse tipo envolvendo brasileira nesses três países. O projeto é piloto. Vamos consolidar e podemos expandir para outros países", disse a ministra, citando os Estados Unidos como possível local para expansão.
O Ligue 180 Internacional é uma parceria entre os Ministérios das Relações Exteriores e da Justiça e a Secretaria de Políticas para as Mulheres. Inicialmente, os Consulados do Porto e de Lisboa, em Portugal, Madri e Barcelona, na Espanha, e Milão e Roma, na Itália, estarão atuando no serviço.
“A ideia é estar disponível 24 horas. Antes havia o apoio prestado pelos serviços consulares, muitas vezes o pedido de ajuda não ocorria porque algumas mulheres ficavam constrangidas de relatar o que estavam passando. Agora haverá um atendimento só para elas”, afirma a chefe do Departamento Consular e de Brasileiros no Exterior, Maria Luiza Ribeiro Lopes da Silva. A diplomata explica que a orientação é para que as atendentes recebam as queixas e providenciem os encaminhamentos desejados pelas mulheres que fazem as reclamações. “O telefonema pode ser anônimo. Se a mulher não quiser fornecer detalhes por temor ou receio, a reclamação será feita da mesma forma”, esclarece Maria Luiza.
Como funcionará o Ligue 180 Internacional
As mulheres em situação de violência na Espanha devem ligar para 900 990 055, fazer a opção 3 e, em seguida, informar à atendente (em português) o número 61-3799.0180.
Em Portugal, devem ligar para 800 800 550, também fazer a opção 3 e informar o número 61-3799.0180.
E, na Itália, as brasileiras podem ligar para o 800 172 211, fazer a opção 3 e, depois, informar o número 61-3799.018. O serviço da Central conta com a parceria do Ministério da Justiça e suporte de embaixadas e consulados.
A escolha dos países, segundo a coordenadora da Central, está relacionado ao grande número de mulheres nas comunidades brasileiras. Além da violência doméstica, são comuns casos de sequestro e tráfico de mulheres nestes países.
(O Estado de S. Paulo/O Globo/Terra/Agência Brasil/SPM)
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
A história de Ane 4. Aqui estamos nós...
foto da internet - sem crédito
Vamos voltar à história de Aniella. Para recapitular: a moça conta a aventura em que se transformou sua vida, simplesmente por ser mulher.
No último episódio, podemos chamar assim, Ane conseguira fugir dos horrores da fazenda, onde vivia subjugada e violentada pelo patrão, um homem a caminho do poder municipal. Com uma estratégia ousada e corajosa, pegou uma carona e chegou, depois de alguns dias de viagem, ao Rio de Janeiro.
Pedi a ela que continuasse a história. A simples lembrança devolvia à tona o circo de horrores ainda tão latente em sua alma. Mas tomada pela força que a fez sobreviver contou e repasso da melhor maneira possível:
Uma loura grande, opulenta, apresentou-se a ela como a proprietária do restaurante. A hora era inconveniente para uma refeição, há pouco acabara de servir o almoço e nem começara a pensar no que servir para o jantar. Mas, poderia preparar algo especial para ela, que parecia faminta e desamparada. Ane ficou comovida com a boa vontade da senhora, por instantes desejou que fosse uma tia, ou até mesmo a amiga que nunca tivera. Aceitou de bom grado a oferta e pouco depois tinha diante de si uma refeição farta e saborosa. Enquanto comia Rosângela lhe fez companhia. Contou uma história muito parecida com a sua, de como veio do interior para tentar a sorte na cidade grande, falou das dificuldades pelas quais passara por um longo tempo, sem ao menos um lugar onde dormir. Dramatizou sobre as investidas de malandros que a viam como uma presa fácil. Como sonhara que aparecesse alguém que lhe estendesse a mão, a aconselhasse, oferecesse oportunidades. Por tudo isso sempre que conhecia alguém na mesma situação, que quisesse ser ajudada, fazia por ela, porque muitas acreditavam na sorte e desdenhavam a mão estendida. Depois voltavam arrependidas. Algumas nunca mais. Porém, para as que aceitavam o amparo, não media esforços para que a pessoa nunca passasse pelo o que ela tivera que passar.
Começava aí o que Aniella chama de segunda fase, tão sofrida quanto a primeira, mas com um detalhe, já não era mais uma menina inocente.
Continua...
Vamos voltar à história de Aniella. Para recapitular: a moça conta a aventura em que se transformou sua vida, simplesmente por ser mulher.
No último episódio, podemos chamar assim, Ane conseguira fugir dos horrores da fazenda, onde vivia subjugada e violentada pelo patrão, um homem a caminho do poder municipal. Com uma estratégia ousada e corajosa, pegou uma carona e chegou, depois de alguns dias de viagem, ao Rio de Janeiro.
Pedi a ela que continuasse a história. A simples lembrança devolvia à tona o circo de horrores ainda tão latente em sua alma. Mas tomada pela força que a fez sobreviver contou e repasso da melhor maneira possível:
Há pouco mais de
um ano, sem saber aonde ir, andando sem rumo pelo bairro da Lapa sentou-se à
mesa de um pequeno restaurante no final da mesma tarde em que chegara à cidade
do Rio de Janeiro, morta de fome. O dinheiro que trazia na calcinha queimava
como uma brasa atirada ali à sua revelia. Apesar de tudo pelo que passara não
se sentia completamente à vontade em ter apanhado um dinheiro que não era seu.
Cometera roubo, um crime, sabia muito bem ser passível de punição. Nascera e
fora criada na roça, mas recebera educação, tanto da mãe, como no pouco que
frequentara da escola. Adquirira o discernimento sobre o certo e o errado e,
não seriam os maus tratos que a transformariam em uma pessoa ruim. Fugira por
pura preservação. Assistira desde cedo o sofrimento de sua mãe, e como tudo
aquilo arruinara a vida do pai. De alguma maneira desejava viver uma história
melhor, extrair da vida a chance de ser respeitada, como mulher, como gente. Na
véspera de fugir dissera à mãe o que pretendia fazer. Ela não disse nada,
sequer derramou uma lágrima, abaixou o rosto virou de costas entrou no quarto e
fechou a porta. Até hoje ouvia o soluço que escapou do peito de sua mãe, um som
grave abafado pelas paredes onde, devia estar ainda hoje, enterrada viva.
Uma loura grande, opulenta, apresentou-se a ela como a proprietária do restaurante. A hora era inconveniente para uma refeição, há pouco acabara de servir o almoço e nem começara a pensar no que servir para o jantar. Mas, poderia preparar algo especial para ela, que parecia faminta e desamparada. Ane ficou comovida com a boa vontade da senhora, por instantes desejou que fosse uma tia, ou até mesmo a amiga que nunca tivera. Aceitou de bom grado a oferta e pouco depois tinha diante de si uma refeição farta e saborosa. Enquanto comia Rosângela lhe fez companhia. Contou uma história muito parecida com a sua, de como veio do interior para tentar a sorte na cidade grande, falou das dificuldades pelas quais passara por um longo tempo, sem ao menos um lugar onde dormir. Dramatizou sobre as investidas de malandros que a viam como uma presa fácil. Como sonhara que aparecesse alguém que lhe estendesse a mão, a aconselhasse, oferecesse oportunidades. Por tudo isso sempre que conhecia alguém na mesma situação, que quisesse ser ajudada, fazia por ela, porque muitas acreditavam na sorte e desdenhavam a mão estendida. Depois voltavam arrependidas. Algumas nunca mais. Porém, para as que aceitavam o amparo, não media esforços para que a pessoa nunca passasse pelo o que ela tivera que passar.
Ao final da fala da senhora, Ane já
não conseguia engolir a comida, a emoção formava um bolo em sua garganta. Que
vontade de abraçá-la, agradecer por falar com ela, por mostrar que nesse mundo
tinha sim, gente boa de bom coração. Tímida, envergonhada pelos olhos
marejados, disse qual uma criança querendo se mostrar capaz, que poderia pagar
pela refeição. Olhou a sua volta, e como não havia mais ninguém, tirou o maço
de dinheiro embrulhado em papel ordinário. Lembrava-se até hoje da expressão de
espanto da senhora, da frase dita com a mão cobrindo a boca: “minha filha do
céu, de onde veio isso?” Imediatamente recusou o pagamento, disse que fazia de
bom grado, que gostara dela. E completou: “Agora que já comeu conta sua
história, como uma mocinha tão graciosa veio parar aqui?” Ane ainda não atinara
o quanto precisava desabafar, confiar a alguém a triste história de sua vida
curta e sofrida. Ao terminar o relato sentia-se leve, chegara a rir para
finalizar dizendo: “e aqui estou pronta para uma vida nova”.
Rosângela
com brilho nos olhos mostrou-se emocionada por poder ajudar, levantou-se,
estendeu a mão a Ane e disse: “Jesus filho de Maria, venha comigo minha filha.”
Ane foi levada para os fundos do restaurante, onde a loura grassa morava e
recebia seu companheiro. O homem dormia apenas de cuecas sobre uma cama pequena
com lençóis encardidos. A mulher o acordou sem qualquer cerimônia, a princípio
ficou furioso, mas ao ver a menina não escondeu seu prazer. A apresentação foi
feita e, ainda agora, as palavras ditas por Rosângela ecoavam, como presságio
nos ouvidos de Ane: “este é o Washington, é com ele que você vai mudar sua
vida”.
Começava aí o que Aniella chama de segunda fase, tão sofrida quanto a primeira, mas com um detalhe, já não era mais uma menina inocente.
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